HQs da semana: 27 de julho

Nossa avaliação

Que Alan Moore é o maior roteirista de quadrinhos em atividade e, possivelmente, de todos os tempos, não é exatamente uma questão aberta à discussão. Se há aí alguma controvérsia, ela vem da personalidade excêntrica e dos modos reclusos do autor, que cortou relações com todas as grandes editoras de HQs e hoje só está ativo através da sua “Liga Extraordinária”, publicada atualmente pela Top Shelf. Dada a raridade das produções contemporâneas de Moore, não é surpresa que “The League of Extraordinary Gentleman – Century: 1969” seja o grande destaque da semana.

“Century: 1969” é a segunda de três partes de uma história centrada na luta dos personagens remanescentes da antiga Liga contra uma conspiração ocultista apocalíptica. A trama acompanha a investigação de Mina Murray (a mocinha do “Drácula” de Bram Stoker), Allan Quatermain (de “As Minas do Rei Salomão”) e o transexual Orlando (de “Orlando, uma biografia”, de Virginia Woolf). A grande estrela da edição é Murray, que em vários aspectos serve como uma alegoria do próprio autor: ela agora opera de maneira independente, e há referências ao fato de que já trabalhou alguns anos antes com super-heróis.

Moore parece determinado a produzir uma estória que jamais possa ser adaptada para o cinema, como aconteceu com o primeiro volume de “The League of Extraordinary Gentlemen”. Nudez, sexo e drogas não faltam, o que não seria de se estranhar numa estória ambientada no auge do movimento hippie. Quem quase rouba a cena, entretanto, é o vilão Oliver Haddo (personagem do romance “O Mago”, uma paródia de Aleister Crowley), especialmente nas suas interações com certas figuras do cenário pop. A manifestação astral do ocultista, entretanto, é altamente perturbadora, já que porta uma genitália bastante, digamos, cthuluniana…

Ao contrário do que ocorre nos primeiros volumes de “The League…”, em “Century:1969” Moore não está mais lidando com personagens que já caíram no domínio público. A solução é a paródia, e Moore constrói uma Londres ficcional a partir de diversas sátiras preexistentes: a suástica é substituída pela cruz dupla de “O Grande Ditador”, de Chaplin; os Beatles são substituídos pelos Rutles (uma banda que parodiou o quarteto durante a década de 1970); Flash Gordon vira Jack Flash, em referência a uma música dos Rolling Stones; e assim por diante.

A arte de Kevin O’Neill continua soberbamente detalhada, e o artista consegue lidar com as cenas brilhantes e psicodélicas tão bem quanto retrata os tempos sombrios que vêm ao final da estória. Final que, por sinal, deixa os leitores salivando pelo próximo capítulo, ambientado em 2009 e que, muito provavelmente, será a conclusão da saga da Liga Extraordinária.

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