Os amigos não ajudam – Ringo Starr ao vivo em BH

Nossa avaliação

Ringo Starr pode ser o beatle favorito da Summer, de “(500) dias com ela”, mas é inegável que seu repertório musical é infinitamente mais fraco que o de John, Paul e George. Não é nenhuma vergonha, pois estamos falando de três dos maiores gênios que a música pop já pariu. Apesar disso, Ringo ainda é alvo de gozações, uma injustiça frente ao seu talento como músico. O show do baterista mais famoso do mundo, realizado no Chevrolet Hall, em Belo Horizonte, no último dia 16, pode não ter sido marcante, mas agradou a plateia, apesar dos momentos de sono causados pela All Starr Band. O grupo que acompanha Ringo é formado por músicos de alguma fama, tocando seus hits do passado.

Ringo demonstrou simpatia e carisma, e a plateia, que já estava ganha antes de ele pisar no palco, repetiu constantemente seu gesto de “paz e amor”. As músicas de sua carreira solo, como “It don’t come easy”  e “Photograph”, animaram os presentes, mas os momentos mais empolgantes, de longe, foram as canções dos Beatles. Mesmo algumas, não tão conhecidas diante do arsenal de sucessos do quarteto de Liverpool, como as versões de “Honey Don’t” e “Act Naturally”, animaram os fãs.

O problema é que metade do show é preenchida por músicas dos integrantes da All Starr Band. A formação atual do grupo conta com Edgar Winter (teclado), Wally Palmar (guitarra), Gary Wright (teclado), Rick Derringer (guitarra), Richard Page (baixo), Gregg Bissonette (bateria) e Mark Rivera (sax). Os músicos são afinados, sem dúvida; seus hits, nem tanto. E a maioria deles não faz exatamente parte do repertório de um beatlemaníaco.

Mr. GTA e ex-hobbit
A enfadonha “Broken Wings”, por exemplo, cantada por Page, ex-Mr. Mister, é mais conhecida por ouvintes da programação noturna da BH FM e por quem jogava GTA Vice City (volta e meia, lá estava ela sintonizada no rádio do carro, momento em que tomar um tiro na cabeça de um gângster no jogo não parecia uma ideia tão ruim). Não à toa, foi a que mais dispersou o público – dizer que o “esfriou” seria um exagero, dado o calor infernal que fazia no Chevrolet Hall. Tanto calor que os integrantes da banda foram despindo seus casacos, como o fez Derringer, que retirou seu paletó cafona e tocou um interminável solo de guitarra, para desespero da plateia.

O camarada Ringo, enquanto acompanhava na bateria, tentava valorizar as canções e ganhar a plateia para seus companheiros, elogiando o desempenho dos músicos. “Você tocou muito bem, Rick! Acho que foi a sua melhor performance dessa canção na história!”, disse a certa altura. Os melhores momentos da banda ficaram por conta de Palmar, ex-integrante do quarteto The Romantics (banda dos anos oitenta cujos integrantes pareciam hobbits metidos em jaquetas de couro), com “What I like about you” e “Talking in your sleep”.

Orange submarine
O público voltou ao show com o alerta feito por Ringo: “Se vocês não conhecem essa, estão no lugar errado”. “Yellow Submarine”, que contou com balões laranjas (?) caindo sobre a plateia, fez os presentes se lembrarem do porquê de estarem ali. “With a little help from my friends”, outro sucesso de sua ex-banda, foi a última antes do bis, numa catarse que superou até mesmo a canção do submarino amarelo. No entanto, Ringo poderia ter aproveitado melhor as duas músicas: tivesse ele prolongado qualquer uma delas, faria do momento uma apoteose à la “Hey Jude” (guardadas as devidas proporções).

Porém, ao permitir espaço demais às músicas dos amigos, acabou deixando o show cansativo em vários momentos. Ao final, um bis mal ajambrado de “Give peace a chance”, de John Lennon, deixou a impressão de que Ringo queria encerrar logo o espetáculo, ao sair do palco sem muita despedida, a despeito da empolgação demonstrada ao longo do show, que durou quase duas horas.

Apesar dos pontos negativos, a noite valeu pelas canções dos Beatles que marcaram as várias gerações presentes no Chevrolet Hall lotado. Gerações que se perguntaram, na saída: por que diabos Ringo não toca a ótima “Octopus’s Garden”, única canção do repertório dos Beatles, ao lado de “Don’t pass me by”, composta apenas por ele?

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