Guided By Voices – Let’s Go Eat The Factory

Nossa avaliação

[xrr rating=3.5/5]

Com quase 30 anos de existência, a banda americana Guided By Voices encontra o período histórico com o qual mais combina apenas agora. As muitas canções de seus discos (uma média que gira em torno de 20) são urgentemente apertadas em, quase sempre, menos de três minutos cada (não raro, abaixo de dois). Nenhuma época é mais apropriada para aceitar essa proposta de instantaneidade musical do que a presente, na qual a obsessão pela velocidade e a ânsia pelo que vem a seguir, seja um email, um novo tweet ou a volta da Luiza do Canadá, são cada vez maiores.

Como se adotasse uma filosofia “live fast, die old”, o Guided By Voices chega ao seu 16º álbum de estúdio, oferecendo novamente canções rápidas embaladas na mais imperfeita sonoridade lo-fi. “Let’s Go Eat The Factory” quebra um hiato de oito anos e mostra que o tempo não amansou (muito) a sonoridade da banda.

Os barulhos caseiros e as letras non-sense do vocalista Robert Pollard permanecem intactos. Sendo o grupo “guiado por vozes”, o álbum constrói um cenário um tanto quanto caótico, já que, a cada faixa, os vocais surgem diferentes, ora distorcidos e misturados com os instrumentos, ora claros e à frente deles. Assim, músicas ruidosas e desconexas, como a ótima Waves, se alternam com canções mais introspectivas e comportadas, que soam tristes como a banda poucas vezes foi, em alguns dos melhores momentos do disco.

Nelas, o passar dos anos trouxe uma melancolia e uma delicadeza que já eram apontadas nos últimos álbuns. Um piano faz a ponte entre a bagunça da primeira metade e o belo trecho final em “Spiderfighter”. Já “Hang Mr. Kite” é guiada por surpreendentes violinos. Em “Who Invented the Sun” e “Chocolate Boy”, o GBV surge mais limpo e leve do que nunca.

A banda ainda parece brincar com o ouvinte, como fez, principalmente, em “Alien Lanes”: é só ele se pegar hipnotizado pelos ruídos de uma canção (“The Thing That Never Need”) ou por acordes simples, que parecem executados por alguém que acabou de aprender a tocar violão usando um manual de banca de revista (“Go Rolling Home”), para a canção logo acabar e outra faixa ser despejada. Assim como tweets que se atropelam, algumas músicas vêm e vão sem deixar muita lembrança, como a chatinha “The Big Hat and Toy Show” e a dispensável “The Room Taking Shape”.

Não há aqui a mesma fluidez dos tempos de “Bee Thousand” ou uma pérola como “Game Of Pricks”. Mas o GBV conseguiu envelhecer sem soar como tiozões que emulam o passado em músicas que são apenas caricaturas de sua fase áurea (alô, AC/DC). “Let’s Go Eat The Factory” mostra que o grupo voltou afinado, e é quase irônico que um disco feito por veteranos da Geração X combine tanto com a juventude dos dias de hoje. Que, por sua vez, está mais preocupada é com a Lana Del Rey.

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