O Velho do Halloween

Halloween, Dia das Bruxas, ou seja lá como você chama, é uma data que no brasil até tentam colocar algum peso cultural como nos Estados Unidos. Mas de gostosuras, travessuras e fantasias pouco resta e ficamos mais na enxurrada de especiais de filmes de terror na programação da TV, cinema (menos este ano, claro, devido à pandemia), maratonas de séries e diversas publicações de quadrinhos e livros com o tema de terror.

Em terras brasileiras estamos acostumados a rir da própria desgraça, então, durante o Dia das Bruxas vemos um bocado de comédia que flerta com o terror, seja em sátiras de humor como no finado Casseta e Planeta ou Zorra Total, e até mesmo, quando o próprio terror tenta se levar a sério e acaba ficando engraçado por causa do trash, como os filmes do Zé do Caixão.

E é exatamente bebendo dessas duas fórmulas que nasceu O Velho do Papelão. Mas, antes de falar sobre a publicação de 2017 da Editora Crás (coletivo independente de quadrinhos formado há mais de dez anos), preciso falar de como surgiu esse tal Velho.

As Lendas Urbanas sempre foram alimento para histórias populares

Eu só apareço em datas especiais

O Velho do Papelão é um personagem criado em 2013 pelo quadrinhista e ilustrador Thiago Spyked para servir de alívio temático aos vídeos do canal do YouTube Crás Conversa Oficial.

O canal é focado em passar conteúdos com dicas sobre desenho, ilustração, produção de roteiro e o dia a dia da profissão de desenhista e sempre abraçou a comédia para informar. Logo, veio a ideia de fazer algo diferente buscando o entretenimento, nascendo assim, os Especiais de Halloween, uma produção com orçamento zero e criatividade de sobra, mas extremamente engraçada de tão tosca.

A produção amadora ganhou popularidade entre os inscritos do canal (que hoje chega aproximadamente à marca de 400 mil) e, anualmente, ganha um novo episódio.

A história se modifica ano a ano, mas a trama central é basicamente a mesma: um velho que tem uma barraca de papelão aparece em uma rua sem saída sempre na noite de Halloween, entrega um objeto ao Thiago Spyked (protagonista não só do canal, mas também das histórias de terror escritas por ele), e o desenhista precisa resolver um caso macabro causado por este tal objeto antes da meia-noite.

Quatro episódios já haviam sido criados quando Thiago Spyked, ao lado dos outros integrantes da Editora Crás, resolveu levar O Velho do Papelão para as páginas de uma HQ. Afinal de contas, fazer quadrinho é o principal motivo da Crás ter sido criada.

Quem tenta me pegar morre!

O Velho do Papelão chegou às HQs em dezembro de 2017, com roteiro de Thiago Spyked, que também assina como desenhista principal, desenhos adicionais de Endi Tadashi, arte-final por Cayla Ortega e Valéria Yuuki, e com um conto deste roteirista aqui que vos fala. Porém, diferente da pegada de terror trash e comédia dos vídeos, a HQ ganha um tom de aventura meio sinistra. Uma pegada mais leve de It: A Coisa.

A HQ intitulada O Velho do Papelão: O Balão Vermelho conta a história dos irmãos Guilherme e Cecília, duas crianças que tem contato com o Velho. Eles recebem um balão vermelho como presente (olha a referência ao It aí) e o chamado para uma missão: pegar três objetos que estão em posse de três seres inimigos do Velho que vivem em mundos bizarros.

Como comumente acontece em aventuras protagonizadas por crianças, elas resolvem puzzles e terminam as missões como pequenas quests de RPG. Passam por um mundo que parece ter saído de um vídeo game, outro que parece uma história fantástica e outro saído totalmente de dentro de um ateliê de desenhista.

Diferente dos vídeos que é claramente um zoação com o fato de se levar a sério no YouTube, a HQ do Velho do Papelão é uma referência às aventuras de terror dos anos 80 protagonizadas por crianças (mesmas referências que a Netflix usou em Stranger Things), mas com elementos adicionais de games, profissão de desenhista e literatura.

Mas calma! Da mesma maneira que o Velho avisa que quem tenta pegá-lo morre, não espere encontrar morais reflexivas, histórias escondidas em diversas camadas e profundidade absurda. O Velho do Papelão: O Balão Vermelho é entretenimento puro. Uma aventura simples que brinca com o imaginário e lendas urbanas como o Palhaço Assassino ou o Homem do Saco. E, vamos ser sinceros? Em tempos em que nossa vida real é mais aterrorizante do que a ficção (um roteiro muito criativo com pandemias, chuvas de gafanhotos e presidentes sem alma), uma história leve para tempos sombrios é sempre bem-vinda.

Convenhamos, 2020 é Dia das Bruxas quase todos os dias, então, prefiro um pouco mais de gostosuras na vida. De travessuras já tô cheio.

“O Balão Vermelho” e as “Crônicas do Velho do Papelão”

Multivelho do papelão

Em 2017, não foi apenas O Balão Vermelho que foi lançado pela Editora Crás. Como foi financiado por uma campanha via Catarse, a HQ foi embalada em um box e acompanhada de uma edição especial (limitada e exclusiva aos apoiadores) chamada Crônicas do Velho do Papelão. Esta segunda HQ tinha um mix de histórias curtas criadas por desenhistas com canais do YouTube. A ideia era clara: se o personagem do Velho saiu do YouTube e foi para os quadrinhos, por que não fazer uma edição especial com artistas que também estão no YouTube?

Com seis histórias que expandem o universo do Velho, no melhor estilo do selo Legends do Universo Expandido de Star Wars, os artistas que assinam as crônicas são Mayara Rodrigues, Bruno Lima, Mônica Yugi, Felipe Marchioni, Renata Celi e Francis de Cristo.

As histórias não são consideradas cânone pelo criador, mas na boa? O que é cânone? Quando passamos por uma situação e contamos esse relato, ele não será exatamente da maneira que aconteceu, mas sim, nossa percepção pessoal sobre o relato. Se outra pessoa tiver presenciado, ela terá uma outra percepção. Desses dois pontos de vistas, qual é cânone? Essa é a brincadeira das Crônicas do Velho do Papelão, mostrar a visão e ponto de vista de cada autor sobre o Velho com a indagação de que aquilo poderia ou não ter acontecido dentro do universo fantástico desse personagem.

Pendurando a barba

Hoje o Velho não existe mais, pelo menos não mais nos vídeos de Especial de Halloween do Crás Conversa Oficial. Sua última participação foi no episódio de 2019. Porém, o Velho ainda está nos quadrinhos. Em comemoração aos 7 anos do personagem, uma HQ on-line foi lançada no início do mês de outubro. Um compilado de histórias enviadas pelos fãs e inscritos do canal, contando suas próprias visões e versões do Velho do Papelão. Você pode conferir, gratuitamente, As Novas Crônicas do Velho do Papelão aqui. Mas, se você quiser conferir a HQ O Velho do Papelão: O Balão Vermelho ele está disponível na loja oficial da Editora Crás.

Por que essas crianças nunca correm nas histórias de terror?

Tico Pedrosa é roteirista, escritor e fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

  • A gente
  • Home
  • Retro
  • Homeopatia
  • Overdose
  • Plantão
  • Receituário
  • Ressonância
  • Sem categoria
  • 2020
  • 2019
  • 2018
  • 2017
  • 2016
  • 2015
  • 2014
  • 2013
  • 2012
  • 2011
  • 2010
  • 2009