O silêncio de uma alma que grita

O que é o silêncio? Alguns dizem que é a calma. Outros falam que é a paz. Mas o silêncio também pode ser o oposto, pois é no que silêncio mora o vazio. O vazio de uma casa, o vazio de um pensamento, o vazio de uma alma.

Vazio.

É sobre este vazio que decidi escrever. Este silêncio ensurdecedor que mora no peito e enrosca na garganta. O silêncio que David Small expôs no quadrinho Cicatrizes, lançado em 2010 pela Editora Leya em parceria com a Barba Negra.

Silêncio

David Small é um artista. Ilustrador infantil e escritor, ele decidiu contar a história de sua infância em formato de Graphic Novel. Sem dúvida nenhuma, mudou o patamar de como se faz histórias em quadrinhos, subindo muito a régua quando falamos de quadrinhos de drama.

Cicatrizes mostra a história de Small a partir dos seus 6 anos de idade. Um garoto que vivia em uma família cheia de rancores e silêncios. Uma mãe amargurada, que não falava sobre o que sentia, se expressava batendo as portas dos cômodos e dos armários. Um pai médico que depositava as frustações em sacos de boxes e nas baforadas de um charuto enquanto ficava quieto. E um irmão mais velho, iniciando a adolescência, que, igualmente quieto como todos dentro de casa, se descobria como dava. E David somatizava todo esse silêncio em doenças respiratórias e crônicas que apareciam nele desde pequenininho.

David Small quando pequeno era todo sonhador e cheio de medos, alguns deles alimentados pelo próprio comportamento misterioso de seus familiares. As doenças constantes do garoto levaram o pai a fazer constantes exames. Quase um rato de laboratório humano, o garoto fez mais raio X da cabeça do que qualquer outra pessoa, já que a especialização de seu pai era em radiografia.

Resultado: David desenvolveu um câncer na tireoide aos 11 anos.

Calados

O câncer em David foi encontrado por acaso, os próprios pais nem haviam reparado que um caroço estava nascendo no pescoço da criança.

Exames e mais exames depois, a cirurgia foi marcada quando David completou 14 anos. Seria simples, apenas a retirada daquele corpo estranho. Porém, uma complicação exigiu que uma segunda cirurgia fosse feita, essa, retirou não só o tumor, mas também uma corda vocal de David.

Ele nunca mais poderia falar.

Aliás, quem também não falavam eram os pais de David. Ambos não contaram para o garoto que ele tinha um câncer. David achava que em seu pescoço tinha um inofensivo nódulo. Imagina então, acordar após uma simples cirurgia e não poder mais falar e ainda ter uma enorme cicatriz marcando toda a extensão de seu pescoço.

Sussurros

David era de uma família antiga, sua infância aconteceu durante a década de 1960, mas vou ser sincero, o modus operanti do silêncio ainda existe. E muito.

Quantas vezes você já ficou calado por guardar um sentimento? Você já conversou abertamente com sua esposa, seu marido, seu companheiro ou companheira? Quantas vezes você se mostrou “frágil” para seus filhos? Você é honesto sobre sentimento e já admitiu ter errado? Pede desculpas com sinceridade?

É engraçado pensar que através dos anos, foi passado geração após geração, que o silêncio é sinal de fortaleza.

Ficar quieto sem se queixar sobre o que te machuca é se mostrar forte. Não pedir desculpas é não demonstrar fraqueza. Não dizer que erra é ter um peito super-heroico.

Eu só tenho uma coisa pra dizer sobre isso:

Pensar assim é bobagem!

Conheço muitas pessoas que vivem uma vida silenciosa achando que pode resolver tudo sozinha, mas só consegue acumular mais rancor e mágoas a cada frase engolida.

Eu tenho certeza de que você também deve conhecer.

E talvez, essa pessoa pode ser você.

Mudo

Tem um momento do quadrinho que David fala o seguinte: “Se você não tem voz, você não existe”. Não caia na besteira de entender essa frase de maneira literal. Pois, ficar sem silêncio não é uma maldição de quem é mudo. Na verdade, existem muitos mudos que se expressão melhor do que muito gente. Mudos que falam alto e claro, com o peito aberto.

A mãe de David não era muda, mas ela não existia, porque a pessoa que vivia naquela casca que ela chamava de corpo era outro ser. Era alguém que ela não queria ser. O pai de David também não existia, porque aquele homem frustrado que voltava do trabalho e fugia dos problemas era apenas pele e roupa. Vazio.

E você? Você acha que você existe? Quem neste momento está habitando seu corpo? É quem você é de verdade ou é apenas uma casca que você usa para se esconder?

Voz

David sabia que confrontar e falar sobre essas questões era difícil. Ninguém aqui está dizendo que se abrir, se expor e conversar é fácil. Por isso que a arte passou a ser a voz de Small. Um refúgio que na infância era só válvula de escape, mas que passou a servir de condutor dos sentimentos enquanto ele crescia. A arte para David passou a ser ferramenta muito mais potente do que os gritos que ele mesmo não conseguia dar, até que esses gritos ressoaram na Graphic Novel Cicatrizes.

Uma HQ com uma narrativa marcante, preto e branco com tons de cinzas primordiais para o tom denso da história. Além do uso de calhas e espaços em branco que dão uma sensação de câmera lenta e passagem de tempo fundamentais para diversos momentos da história. Principalmente as mais dramáticas.

As linhas finas dos desenhos de Small trazem gestões e expressões que falam mais do que qualquer balão de fala ou pensamento. O que faz a história ganhar profundidade a cada vez que você relê, pois observa nuances antes não observadas.

Se falar é incômodo para você, faça sua voz sair por alguma atividade que você gosta. Como David Small fez com os desenhos.

Cicatrizes

Falar, se abrir, ser sincero, mostrar que erra, não são atributos de alguém fraco. Muito pelo contrário, são qualidades de alguém forte. Só quem é forte é resignado suficientemente para se abrir e se colocar no patamar de igual. Apenas aqueles que são fracos constroem armaduras ou muros orgulhosos, porque não possuem a capacidade de combater os problemas com peito aberto, com a possibilidade de sangrar.

A grande questão é que sangrar e se machucar quando somos sinceros e vamos com o peito aberto, pode até doer, mas não fere. Na verdade, traz uma maturidade muito maior e essa maturidade é a melhor pomada cicatrizante que existe.

Porém, quando se engole os sentimentos, grandes chagas crescem dentro de nós. Rancor, ódio, culpa e outras tantas coisas que doem muito e que custam a curar.

E é exatamente isso que David Small explica, que as dores internas causadas pelo silêncio são muito maiores e mais permanentes do que a cirurgia de um câncer.

Repare com atenção no nome do quadrinho. Small fez apenas uma cirurgia. Ele tinha apenas um corte no pescoço, mas a HQ se chama Cicatrizes, no plural. Isso porque os cortes na alma… ah, esses são bem mais do que um.

Tico Pedrosa é roteirista, escritor e fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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