Rindo, só que de desespero

Você se lembra do momento que deixou de lado os programas infantis e entrou na transição da maturidade?

Sim eu sei que adultos assistem desenhos. Eu assisto. O que quero dizer com essa pergunta é: Você se lembra qual foi o exato dia em que a sua infância se foi?

Para grande parte das pessoas essa transição é tênue. E para outras tantas, ela drasticamente traumática.

Funny Creek é exatamente um conto que mostra como a maturidade pode chegar como um turbilhão na vida de uma criança.

A graça está no clichê

Com roteiro e história de Rafael Scavone (Hit Girl) e Rafael Albuquerque (Vampiro Americano) e com os desenhos de Eduardo Medeiros (Gotham Academia), Funny Creek, da Pipoca e Nanquim, é mais um quadrinho do selo Stout Club, grupo editorial feito por brasileiros visando a distribuição para no exterior. Quadrinhos como Mondo Urbano, Eight e Open Bar, publicados no brasil pela Mino e Panini, fazem parte do mesmo selo.

Como todas as histórias do selo, Funny Creek busca extrair ao máximo da equipe criativa, seja na questão do roteiro como na arte. O resultado? É uma história simples porém rica. Diverte e, ao mesmo tempo, tem um peso moral forte.

Na história, Lily, uma garota que é superfã de um programa infantil chamado Funny Creek Show, está fugindo de alguma coisa que ela fez, até que bate a cabeça em um poste. A batida é tão forte que a menina desmaia e é transportada para o mundo em que seu desenho favorito existe. Ela entra em Funny Creek Show.

É clichê? Sim é clichê. E não apenas a maneira como Lily é transportada para o mundo imaginário, mas também os acontecimentos que se seguem (e até mesmo o problema que ela está fugindo). Porém, a mágica desta história não está em como ela pode ser inovadora, mas sim, em como ela consegue contar de maneira tocante algo que já vimos.

(Des) Respeitável público

Lily já chega em Funny Creek Show no olho do furacão, quando uma das cidades está sendo invadida pelo vilão Cold Joe. Sendo fã do programa e sabendo como tudo acontece, a garota derrota parcialmente o vilão e vai de encontro ao xerife da cidade: o palhaço Clumsy.

Então, a história joga na frente do leitor uma enxurrada de referências e símbolos que são extremamente fortes para a atualidade. A principal dela, com certeza, é Clumsy. O suposto herói da história é um palhaço que claramente não é apto para exercer a função como líder. Além de não levar nada a sério, ele foge das obrigações, não tem compromisso com a verdade, faz acordos com outras pessoas (ou seja, ele nem detinha tanto poder assim) e usa a população como peões, simples peças descartáveis no seu jogo de poder.

Não é muito difícil de perceber com qual mito esse Clumsy se parece. Ainda mais um mito que ganhou um apelido de palhaço.

Casa dos espelhos

A grande questão desta história é mostrar como nossos heróis são falhos. Pois colocar seres e pessoas em pedestais, como se fossem intocáveis, acima da lei, ou mesmo, infalíveis, é um erro tremendo. Até porque, também somos imperfeitos.

E este é o toque primordial de Funny Creek, a sacada que poderia ser cômica, se não fosse tão trágica: nós somos o espelho daqueles que projetamos e admiramos.

E não importa o que projetamos. Se projetamos esperança, ou se projetamos raiva. Se projetamos ódio, ou se projetamos amor. Cada figura que jogamos nossas energias é um pouco de nós, seja ela fictícia ou real.

Se você escolhe governantes que discursam o ódio, pode ter certeza, você faz parte do mal que ele propaga. Se escolhe os gritos e a imposição, o preconceito e a segregação, esses pontos negativos fazem parte de você. Sente afinidade com personagens com a moral levemente desviada? Você faz parte dessa imoralidade.

Você pode até pensar: “ah, balela, eu não sou um tirano”. Às vezes, você só não teve a chance de ser, aguarde até que o poder esteja em suas mãos por algum tempo e perceba como você se comportará.

Ligue a TV

Os símbolos de Funny Creek não ficam apenas em Clumsy, mas estão em todos os outros personagens. O prefeito da cidade, um domador com um chicote em mãos. O juiz, também um palhaço. Betsy, uma mulher firme em seus objetivos, porém omissa nos problemas alheios. O assistente Cody, o pequeno coadjuvante com espírito de herói. Andy, o pequeno garoto que só quer ter amigos, a ponto de fazer qualquer coisa para ser aceito. E a própria Lily, que mesmo sendo uma criança só se importa com ela mesma, com o que ela pode ganhar, com os benefícios que ela pode ter.

É exatamente no momento que Lily entende o quanto ela é egoísta, e como isso pode prejudicar os outros, é que chega à maturidade, tão rápida quanto uma bala.

Porém, as consequências de suas atitudes podem ser devastadoras, e entender seu egoísmo, de maneira tardia, pode sim ser tarde demais.

Desligue a TV

Funny Creek te transporta para um lugar íntimo, quase como se te puxasse pelas mãos. E é por isso que os clichês estão tá, pois este lugar íntimo tem que ser de fácil acesso. As ideias precisam chegar rápidas o inconsciente, e nada mais rápido do que o atalho daquilo que sempre vimos.

Porém, a construção da história é forte e sensível. Muito se dá ao desenho de Eduardo Medeiros, que mesmo sendo cartunesco carrega uma carga emocional enorme. E claro, não dá para falar da arte sem exaltar o magistral trabalho de cor da Priscila Tramontano, que dá vida aos personagens, seja nos trechos que se passam em Funny Creek Show, ou nos momentos em que a história está no mundo real.

E de maneira oposta ao convite que a HQ dá ao te levar para o mundo do inconsciente, ela te joga na realidade com firmeza nas últimas páginas. Quase como se gritasse: “está é a realidade, conviva e aceite”.

Acho melhor aceitar, porque se persistir no erro, os acontecimentos trágicos do egoísmo de Lily podem acontecer com nós também. Não os mesmos, claro. A moral de uma obra nunca tem que ser entendida de forma literal, mas é sempre um alerta e um ensinamento.

PS.: Sobre ligar e desligar a TV, percebam que ao abrir a HQ você é levado para o mundo do desenho animado, com uma abertura à la Looney Tunes. Mas antes de fechar o livro o que temos é uma TV sem sinal, sem sintonia. Apenas o fim.

Tico Pedrosa é roteirista, escritor e fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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