Uma visão sobre humanidade

Qual é a sua visão sobre ser um ser humano? O que te define como um ser humano? Pensar sobre o que nos faz humano é tentar achar respostas que nos levarão a vários questionamentos e provavelmente algumas crises existenciais. Ser um ser humano é o quê? Viver? Raciocinar? Ter família? Se relacionar em comunidade? Aprender por mimética? Calma, a ideia aqui não é filosofar, até porque ir por este caminho é quase um beco sem saída. Mas, Tom King, um dos melhores roteiristas da atualidade, faz um exercício sobre a humanidade utilizando o Visão, um ser que não é humano. Ou será que é?

Mais Visões, menos Wanda

“Visão”, foi uma série da Marvel em 12 edições, lançada durante o ano de 2016, aproveitando o início do selo All-New, All-Different que reformulou todos os personagens da linha editorial principal da editora. Aqui no brasil, foi publicada pela Panini, no ano de 2018, em dois encadernados.

Na série, após o rompimento com Wanda, Visão decide ter uma família para se sentir mais humano. Então, ele cria três sintozoides (nome dado aos androides sintéticos feitos do mesmo material de Visão): Virgínia, para ser sua esposa, e os gêmeos Viv e Vin, para serem seus filhos. Os quatro androides se mudam para o subúrbio de uma pequena cidade no estado de Virginia, EUA.

Bom, o que pode dar errado em uma família de robôs se mudando para o interior, para viver uma vida como um humano qualquer? Ai que está o problema: eles tentaram ser humanos.

E o pior de tudo: conseguiram.

Casos de família

A humanidade teme o que desconhece, ou teme todo o tipo de indivíduo julgado como inferior que pode ascender de alguma maneira. É por isso que muitos racistas, que se acham mais humano por causa da cor, são violentos, porque tem medo de uma ascensão do povo negro. O mesmo exemplo cai sobre os machistas e homofóbicos, que tem pavor de ver uma mulher ou homossexual em posição de poder, porque não querem se sentir incapaz, simplesmente por ser homem (e em algum ponto da nossa história inventaram que homem, hétero e cis precisa ditar as regras sociais, e agora fica difícil de tirar essa ideia da cabeça de pessoas de mente pequena).

Partindo deste princípio, quando Viv e Vin, os filhos de Visão, começam a frequentar a escola, muitos alunos e pais de alunos ficam com medo de tê-los por perto. O mesmo acontece com os próprios vizinhos da família Visão, que tem preconceito e repulsa pela presença do Vingador na vizinhança.

Todas essas questões se agravam quando o vilão Ceifador invade a casa de Visão enquanto ele estava em uma missão com os Vingadores, e ataca a família sintozoide, mas é morto por Virgínia que protegia a filha Viv.

Para continuar protegendo a família, e principalmente a imagem do marido, Virgínia faz o que todo humano faria: mente.

Imagem e semelhança

Como uma bola de neve, os acontecimentos seguintes trazem mais embaralho e são sempre resolvidos de uma forma humana (e isso não é bom). Não estou falando apenas das resoluções da família de Visão, e mesmo do próprio Visão, mas também da resolução de cada pessoa envolvida nessas teias de problemas.

Os vizinhos agem com mais medo, transformando o pavor em ameaças. E essas ameaças adicionam mais mortes e vítimas para trama. Os Vingadores utilizam a manipulação e a mentira para conseguir descobrir a verdade sobre a família do Visão (o que é contraditório, não é mesmo?). Visão, para proteger sua família e mostrar para todos ao redor que eles são felizes, mesmo com tantos conflitos internos, também mente.

Então, percebemos que não importa se são humanos ou sintozoides; de carne, osso e sangue ou de material sintético; se são feitos na imagem e semelhança de Deus ou na imagem e semelhança de Ultron. Todos conseguem agir com humanidade, porque a humanidade é imperfeita.

A (im)perfeição humana

A falta de diálogo para resolver as questões do dia a dia, está longe de ser algo que existe apenas na ficção. Isso acontece em nosso cotidiano. Não há diálogos com e entre os governantes. Também não há diálogo no ambiente de trabalho, principalmente com as pessoas que estão em posição de liderança. Não há diálogos dentro da própria família. Não há diálogos nem com nossos próprios sentimentos.

Em contrapartida, o que existe é o “jeitinho” para resolver as coisas. De esconder ações, sentimentos e acontecimentos, simplesmente para mostrar ao entorno que você é humano, que está dentro da “normalidade” considerada humana.

Quantos não traíram seus companheiros, mas escondem com medo de julgamentos. Quantos já mataram de maneira passional, mas escondem com medo das consequências. E tem aqueles que roubam, mas nunca vão falar, não apenas por ser errado, mas por não ser considerado humano.

Mas, será que isso tudo, no final, não é um ato humano?

37 vezes

Pense em quantos desvios morais e de conduta você já teve durante sua vida (não se iluda, todo mundo teve e tem desvios, não enxergar isso pode ser um desvio de conduta muito maior), isso te fez menos humano?

E imagina se sua família estivesse sendo investigada por um crime que cometeram, você ajudaria a justiça ou ajudaria a família e encobertaria?

A grande questão aqui não é a capacidade ou a incapacidade de ser um ser humano, mas sim, se dentro da sua humanidade você tem desvios de condutas morais e de caráter. Mas independentemente desses desvios, nós somos humanos, porque esses desvios são parte do que nos molda como ser humano.

E não pense que todas as coisas boas que podemos fazer em nossa vida excluem os erros. Porque são exatamente esses erros que colocarão em xeque nossa capacidade de ser um ser humano. Você pode salvar o mundo trinte e sete vezes, como o Visão, mas será no momento em que cometer um erro, ou seja, ser um humano comum, que a sua humanidade será posta em prova.

Heróis e vilões

Talvez, o que nos faz humanos é exatamente isso: uma infinidade de complexidade morais que nos faz ser heróis e vilões em uma mesma narrativa. Sem perfeições. Hipocrisia, egoísmo, mentiras fazem parte de nós como seres humanos. Não seriamos humanos sem esses “defeitos”.

Então, muito provavelmente, estamos procurando a perfeição em um momento errado da história, não que não devemos melhorar e nem tentar evoluir moralmente. Sim, devemos melhorar, moramos e convivemos em sociedade, e não há no mundo bomba mais mortal do que o egoísmo. Mas se tornar um ser humano perfeito? Encontrar uma raça, ou gênero, um intelecto perfeito? Encontrar uma atitude dentro de uma moralidade perfeita? Sempre que tentarmos achar a perfeição por esses caminhos excludentes vamos falhar miseravelmente. Por que isso tudo é impossível de achar. Não existe. Porque não é humano.

A humanidade é imperfeita. Somos a imperfeição.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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