Viajando no tempo e repetindo os erros


Quantas besteiras e pisadas de bola você já fez na vida? Muitas, né? Mas relaxa, acredito que quanto maior a idade, maior será o número para essa resposta. Absolutamente ninguém sai ileso de viver uma vida sem cometer erros. Mas e se você pudesse voltar para o passado e modificar exatamente os momentos em que considera ter errado? Bryan Lee O’Malley, o autor de Scott Pilgrim, repete a fórmula de viagem no tempo para falar um pouco mais sobre a importância de fazer as pazes com você mesmo em Repeteco.

Além de Scott Pilgrim

Bryan Lee O’Malley é um cartunista canadense, e, para mim, um dos melhores quadrinhistas modernos. Seu primeiro trabalho foi À Deriva, em 2003 (lançado aqui pela Geektopia em 2018). Foi em 2004 que ele lançou a série Scott Pilgrim Contra o Mundo. O sucesso foi tanto, que levou a HQ ao cinema em 2010, mesmo ano em que o quadrinho chegou em terras brasileiras pela Companhia das Letras. Seu trabalho mais recente foi A Garota-Ranho (Companhia das Letras) ao lado de Leslie Hung, mas não conseguiu repetir o sucesso de Scott Pilgrim. A única obra que se compara ao sucesso de Pilgrim, é Repeteco, também lançado por aqui pela Companhia das Letras.

Ponto de repetição

Em Repeteco temos Katie, uma mulher de 29 anos que, como qualquer adulto da nova geração, custa a aceitar que se tornou uma adulta. Ela possui sonhos e planos de consolidar sua carreira de chef, depois de ter ajudado a montar um restaurante de sucesso chamado Repeteco, mas que tinha como autoria apenas o cardápio e nenhuma participação como sócia. Logo, ela queria montar seu próprio restaurante para mostrar que sozinha conseguia sucesso igual ou ainda maior.

O grande problema é que a vida não se ajeita para que os planos alheios se consolidem, então, Katie precisa resolver, ao lado do sócio, questões burocráticas da construção do, já atrasado, novo restaurante. Além disso, precisa resolver os problemas com o ex-namorado e, também, ser sincera com o atual relacionamento. Se tudo estava uma bagunça, pôde piorar, pois uma funcionária do Repeteco se queima após esbarrar em uma panela cheia de óleo quente.

Com a vida adulta de cabeça para baixo, mas sem querer resolver nenhum problema, Katie descobre uma maneira de voltar ao passado, comendo uns cogumelos mágicos. Mas, uma vez experimentado a viagem no tempo, sair desse looping seria muito difícil.

Katie McFly Connor

Conhecemos De Volta para o Futuro e Exterminador do Futuro suficientemente para saber que tentar apagar o passado nunca dá certo. Katie, mesmo assim, se arrisca. Na primeira ocasião era para resolver algo sério, o acidente da funcionária. Mas Katie percebe que a vida dela inteira foi construída em cima de escolhas erradas que ela fez. Logo, acredita ter ganhado novas chances para refazer esses erros.

Já que ela pode salvar a vida de uma pessoa, oras, por que não salvar a própria vida?

Qualquer um faria o mesmo, certo? Ganhar uma segunda chance seria ótimo. E uma terceira, quarta, quinta… A grande questão é: se nos preocupamos tanto em consertar nossos erros e esperar a vida ficar perfeita para viver de verdade, qual será o momento que vamos viver mesmo? Será que o dia perfeito, o momento ideal, uma hora chega?

Katie descobriu da pior maneira que não.

H.G. Wells já sabia disso

Seria fácil demais ir até o passado e fazer diferente o que fez de “errado”. E quando eu coloco errado em aspas, é simplesmente porque se a gente pensar bem, o conceito de erro é bem complexo. Muitos desses tais erros são comportamentos nossos que nem tínhamos consciência se seriam destrutivos antes de fazê-los. Ah, mas e as pessoas que fazem coisas maldosas de propósito? Até os erros delas podem ser analisados. Pois são sim desvios morais, mas que, muitas vezes, no íntimo delas, acreditam estarem certas.

Logo, os erros são completamente relativos, até aqueles que são realizados em ações e contextos imorais ou criminosos. Mas, tenha certeza, nenhum erro da Katie fazia parte desses exemplos tão trágicos e extremos. E geralmente, a maioria (senão todos) dos nossos erros são esses do cotidiano. Um sentimento escondido aqui. Uma frase mal colocada ali. Um silêncio em um momento que deveria ter um diálogo.

A grande questão é que enfrentar os problemas que nascem em consequência de nossos erros, nos educam e ensinam a amadurecer. Qual aprendizado teríamos em voltar ao passado e fazer algo diferente por mera culpa e arrependimento? Ou simplesmente para que aquele errinho do passado não se torne um erro maior no futuro e, consequentemente, mais difícil de solucionar?

Não aprenderíamos nada. Não amadureceríamos. E, tal como a Katie, envelheceríamos sem nos tornar adultos. Porque fugir dos problemas é mais fácil do que os enfrentá-los.

Dias de um futuro cheio de lembranças

Não precisa de uma máquina do tempo para não aprender com os problemas. Basta fugir deles. O resultado é exatamente o mesmo. A grande questão é que, para Katie, cada vez que ela mudava o passado, mais diferente se tornava o presente. Até chegar a um ponto de não saber mais quem era, simplesmente por ter vivido tantas possibilidades de vidas.

Se Katie tinha os cogumelos mágicos que a levava para o passado e fugir dos problemas, as mentiras e as desculpas são as ferramentas que usamos para fugir dos nossos problemas. E quando recorremos a essas ferramentas uma vez, recorremos mais vezes depois. Até que chega o momento que bagunçamos tanto a linha do tempo da nossa narrativa, que é impossível saber qual história precisa ser sustentada.

E quando tudo ficar insustentável a resolução é inevitável: enfrentar os problemas de uma vez.

No fim das contas não dá para fugir da resolução do problema e a trama da nossa vida se torna como a trama do Repeteco: se Katie tivesse aprendido com suas pendências, elas não piorariam.

E como ela mesmo diz na HQ “Tem coisas que a gente não tem como mudar, e aí tem que aceitar como elas são.”

Aceita que dói menos

A aceitação é a chave para a resolução de cada problema que temos. Principalmente a autoaceitação. Aceitar quem somos, mesmo cheio de defeitos, e também aceitar nossas qualidades. E entender o que é imutável e o que não conseguimos controlar.

Aceitar é sinônimo de uma vida mais leve.

E tal como em Scott Pilgrim, onde Scott conversou com seu “eu negativo” para aprender e aceitar a própria sombra, O’Malley volta para essa moral de uma maneira diferente, já que histórias podem ser contadas e recontadas com o passar das décadas sem perder o brilho. Em Repeteco, Katie conversa com uma bruxa, a representação de sua sombra.

E aí? Não tá na hora de fazer as pazes com sua sombra também? Ou vai esperar aparecer uma máquina do tempo? Esperar a hora certa, pode fazer com que a hora certa nunca chegue.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.


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