A vida é rosa

Se tenho uma certeza sobre a vida adulta é que, mais cedo ou mais tarde, acabamos caindo em uma rotina blasé. E nem é porque gostamos de nos acomodar, é que o cérebro humano gosta de segurança, logo, a tendência de começarmos a fazer da nossa vida uma rotina sem fim é normal. Quanto mais rotina, mais segurança, quanto mais segurança, menos o cérebro trabalha. Mas, até quanto isso é bom? Sem atribuir malefícios ou benefícios de uma vida sem cor, Arthur Pigs traz em Thomas: La Vie en Rose uma suave e bem humorada percepção sobre a autoestima e a coragem.

Começo

Thomas: La Vie en Rose é mais uma HQ a fazer parte do selo Narrativas Periféricas da Editora Mino, talvez a mais diferente de todas da série. Isso porque o autor, Arthur Pigs leva para as páginas da HQ um estilo narrativo de tiras, com os quadros de tamanhos mais regulares e enquadramentos similares.

Essa cadência narrativa leva para a HQ uma personalidade quase traduzindo as sitcoms modernas para as páginas de quadrinhos. O resultado é uma HQ cheia de humor retirado do dia a dia, do cotidiano, enquanto vamos conhecendo a história e drama dos protagonistas.

A história narra a vida de Thomas, ou pelo menos um recorte dessa vida. E essa vida aí não tem nada de mais, não. Ele é um cara normal, que trabalha em um emprego que não gosta, com um chefe ele detesta. Além disso, está no período de pós-término de um namoro mal curado. O problema na vida profissional somado ao problema da vida amorosa só pode ocasionar em uma coisa: autoestima baixa.

Thomas e um rapaz comum. É aquela pessoa que você convive o tempo inteiro, no trabalho, na faculdade. Thomas, aliás, pode ser você. E é exatamente, nessa identificação, que Thomas: La Vie em Rose nos ganha.

Mudança

A vida de Thomas começa a mudar pouco quando ele conhece Sara, uma garota no trabalho dele que, pasmem, gosta dele.

E agora, vou interromper um pouco o resumão da história para reforçar um clichê que absolutamente todo mundo que já passou por problemas amorosos na vida já ouviu: sempre tem alguém interessado em você, você pode não perceber, mas existe alguém que te acha interessante.

A grande questão é que quando não nos amamos, não conseguimos observar as coisas boas que estão acontecendo ao nosso redor. É como se a falta de autoestima fosse um tampão colocado em nossos olhos, tudo é ruim. Simplesmente porque nos vemos fazendo parte dessa ruindade e não merecedor de qualquer melhora.

“Saras” às vezes aparecem em nossas vidas, porém, se estivermos enterrados em um emprego ruim e desgastante, em um desamor tremendo de uma vida cinza, não as percebemos. E a ideia de solidão cresce ainda mais dentro do peito e junto com ela, a desconfiança de que nada de bom que pode acontecer, é realmente bom. Pensamos ser só mais uma peça ou armadilha da vida.

Desconfiança

E já que nada pode dar certo na vida de quem não se vê merecedor, claramente, nada poderia dar certo a Thomas. E mesmo ao perceber Sara, Thomas entra em ciclo enorme de autossabotagem. São saídas que dão erradas e algumas conversas estranhas, até que finalmente percebe que, sim, é real.

Sara gosta de Thomas, então, por que não se abrir?

A grande questão é que o mundo não vai parar num mar de coisas boas, só porque uma está dando certo na vida. E esse é o grande negócio que é viver.

Viver é olhar o copo meio cheio, mesmo quando você tem a impressão de que ele está se esvaziando mais e mais. Porque a gente sentir que o copo esvaziou 100% vem a percepção arrebatadora do “por que ainda preciso ficar vivo?”

E no desespero de querer se livrar de todos os problemas a HQ mostra de uma maneira tão simples, leve e fácil de entender, que todos têm seus fantasmas. Todos passaram por batalhas e problemas que tornam cada um único e singular.

É justamente por causa de sermos peças únicas, nós nos encaixamos com as pessoas e coisas ao nosso redor, pois elas nos completam. Assim, fazem com que a gente encontre sentimentos e atitudes que antes não enxergávamos em nós. As pessoas próximas são nossos espelhos e nesses espelhos também conseguimos ver o melhor de nós, que sozinhos, não percebemos.

Vida

Thomas: La Vie en Rose é sim uma comédia, mas também é um drama. Nessa mescla de seriedade e humor a gente percebe como a vida de Thomas, é também a nossa vida.

Há dias, há períodos que tudo é sem cor, é mecânico, é dolorido e amargo. Mas a vida pode ser rosa também. E é uma grande mentira se eu disser que “é só querer”. Porque não é só querer não. A complexidade da vida vai te dar um bocado de nó, para mostrar que muitas vezes não podemos querer nada.

Mas e aí, o que fazer então?

Esse negócio de vida é louco, porque quanto mais a gente vive, mais temos dúvida e, muito parecido com as provas na escola, quando a gente acha que tá muito fácil, é porque estamos fazendo algo bem errado. Mas Arthur Pigs, usando as páginas de Thomas dá uma ótima dica: a confiança.

Confiar de que você pode ser merecedor sim das coisas boas que acontecem com você e, sempre que possível, também confiar no potencial de se impor. Às vezes, as coisas que te machucam só continuam te afetando, porque você está dando espaço demais para elas.

E aí, com confiança, é mais fácil deixar para trás os fantasmas do passado e seguir em frente. Tendo a certeza de que a vida pode não ser completamente boa, pode ter um problema aqui e ali, mas rosa, alegre, feliz, ela pode sim. Basta se abrir para isso. Se não completamente de peito aberto, mas com, pelo menos, um pouquinho de confiança.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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