Borboletas em transformações

O que você faria para ajudar alguém que ama? Quais seriam suas transformações e abnegações? É justamente utilizando o tema de sacrifícios pessoais que Kan Takahama traz em O Último Voo das Borboletas. Um mangá que sai do modelo tradicional de narrativa e mostra a relação entre o amor e a vida das prostitutas no Japão da segunda metade do século XIX.

Lagartas

O Último Voo das Borboletas, conta a história de Konoha, também conhecida como Kichou Tayu, a prostituta mais cara de um famoso bordel do distrito de Maruyama. Foi lançado originalmente em 2014, mas que chegou aqui no brasil em 2019 pela editora Pipoca e Nanquim

Konoha é cobiçada por muitos homens ricos que, não a querem por noites esporádicas, mas sim pagar pela liberdade dela. A prostituição era uma profissão bem comum aos mais pobres no Japão. Principalmente entre as famílias que vendiam suas filhas ainda crianças para pagar dívidas. Assim, era preciso pagar a estimativa de lucro que a prostituta daria ao bordel até o final do acordo para tirá-la do local. Quanto mais jovem a prostituta, mais cara é sua liberdade pois ela teria ainda longos anos de trabalho.

Porém, Kohoma não quer a liberdade. Essa ela já teve quando era jovem, mas abriu mão após o marido ter adoecido, vítima de um tumor no cérebro. De volta ao bordel ela se torna a famosa Tayu.

É nesse pano de fundo que um mistério começa a se desenrolar, que vai do fato de Tayu não querer a liberdade e passa pela presença Kenzo, filho do primeiro casamento de seu ex-marido. Além disso, temos o médico holandês que ensina medicina europeia no Japão, o doutor Anthonius Franciscus Bauduin, que também quer tirar a prostituta da vida no bordel.

Muitos personagens e vontades que se entrelaçam, mas todos tem um único fio que amarra tudo: Kohoma.

Além das espadas

Eu sou um fã assumido das histórias do Período Edo no Japão (1603-1868). Autores como Eiji Yoshikawa, Kazuo Koike, Hiroshi Hirata e Hideki Mori tem lugares reservados em minha prateleira e em meu coração. Mas faltava algo. O Japão feudal e o início da era moderna trazem um machismo muito grande em sua construção social. Igual a outras civilizações orientais ou ocidentais, mas bem particulares por causa de sua cultura. Essa construção é também levada na hora de contar histórias, então, os autores que mencionei têm uma visão muito parecida e peculiar sobre as mulheres daquela época, simplesmente por serem homens.

O Último Voo das Borboletas é de autoria de uma mulher, Kan Takahama, e isso faz uma total diferença para a maneira que a história é contada e, principalmente, como as mulheres são retratadas neste ambiente de prostíbulo.

Elas não são simples prostitutas que vendem o corpo por dinheiro, sem sonhos. Como simples objetos. Elas têm vontades, planos, desenhos. Muitas querem viver uma vida normal fora dos bordéis, casar-se, ter filhos, exercer o papel feminino que era estabelecido para as mulheres daquela época. Papéis esses estabelecidos por uma sociedade machista, mas que eram apresentados como uma normalidade social para época. Outras querem continuar, explicando que o mundo de fora dos bordéis é muito mais cruel do que a serventia e prostituição noturnas.

Assim, Takahama nos pega pela mão e mostra uma visão muito íntima sobre essas mulheres: “não somos objetos, e podemos ser heroínas muito maiores do que os orgulhosos homens”.

E de fato são. Kohoma é.

Casulos

Uma das coisas que sempre me incomodou nas histórias de samurais e ronins do Período Edo, mesmo gostando muito delas, é a narrativa de como os homens são orgulhosos e a importância de manter uma aparecia firme, fechado neles mesmo. Como se honra e orgulho fosse uma coisa só.

Quantas histórias eu li e que a cada página que eu virava pensava: “Nossa, se isso fosse uma história real dava para solucionar com um diálogo”. Mas parece que os homens dessa época não conversavam, não se abriam, e resolvia tudo no “deixa que eu faço porque sou honroso e orgulhoso”. Pensando bem aqui, isso acontece até hoje, em qualquer lugar do mundo, inclusive no brasil.

Então, vemos o garoto Kenzo tentando segurar a vida de maneira orgulhosa, tentando ser honrado. Ou ainda o Dr. Toon (apelido de Anthonius) achando que é uma atitude heroica e nobre tentar tirar Kohoma da vida de prostituição sem nem ao menos entender e saber o que ela passa ou mesmo suas vontades intimas. E depois disso conseguimos entender que longe dos símbolos de campa e brasão no peito, heróis de uma vida mais “real” são feitos não das ações ditas másculas, mas sim, da sensibilidade de alguém que deixaria tudo na vida, simplesmente para cuidar de outra pessoa. Mesmo com a certeza de que essa pessoa morreria, mais cedo ou mais tarde.

E esse paralelo com o mundo real fica muito forte quando sabemos que Dr. Toon realmente existiu (mesmo que a dinâmica dele na história tenha sido ficção). O bordel de Maruyama também é real e foi muito famoso, mas hoje é um museu e um restaurante.

Borboletas no verão

Estou me segurando para não jogar um spoiler aqui, mas é que acredito que certas histórias precisam ser lidas e sentidas, e não apenas descortinadas em uma resenha. O Último Voo das Borboletas é exatamente esse tipo de história.

Leia e deixe se envolver pela trama que vai evoluindo e ficando cada vez mais clara capítulo a capítulo, página a página. Aceite o convite de Takahama de entrar na história e acompanhar o seu desenvolvimento com uma narrativa tão próxima dos seriados ou de um filme que fecha cada ato com o fade out.

O Último Voo das Borboletas, uma história típica do final do Período Edo no Japão, voa longe das espadas e sangues tão viris da honra orgulhosa masculina. Vem em um pouso suave e transformador de uma visão de renúncia feminina que, não importa a época, só poderia ser escrito por uma mulher e sentido por uma mulher.

Nós homens temos muito o que aprender.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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