Uma Galáxia de liberdade e igualdade

Nossa avaliação

Que a Força esteja com você, caro leitor desta coluna. E ainda no clima do Dia do Star Wars nada mais justo do que falar dessa franquia que enche meu coração de amor (e algumas vezes de raiva também). E uma das HQs que me encheu muito de alegria foi Doutora Aphra. Quadrinho que começou a ser publicado aqui no brasil mensalmente nas páginas da revista Star Wars, da Panini, a partir de 2017. Mas, foi concluída em três encadernados lançados em 2019 e 2020.

O Poder da Força

Nesta semana comemoramos mais um May the 4th be with you. Conhecida como Star Wars Day, a data celebra a franquia que faz sucesso em galáxias distantes desde 1977. Franquia que se espalhou em diversos spin-off seja em livros, quadrinhos, filmes e séries derivados. A partir de 2012, após a Disney comprar a Lucasfilm (produtora de George Lucas e até então detentora dos direitos de Star Wars), todo universo expandido foi zerado dando origem a novos personagens e novas histórias que iriam complementar a Saga Skywalker nos cinemas. E uma dessas histórias é, justamente, as HQs da Doutora Aphra.

A primeira fase da HQ totalizou 40 edições lançadas pela Editora Marvel, todas elas chegaram aqui no brasil. A arqueóloga Aphra foi criada por Kieron Gillen ainda nas páginas da revista Darth Vader. Depois, a personagem ganhou popularidade e passou a ter sua própria série mensal, também roteirizada por Gillen, e posteriormente, por Simon Spurrier.

Mas, de tantos personagens novos criados nesta fase Disney do universo expandido, por que justamente a Doutora Aphra ganhou tanta popularidade?

Além dos Jedi

Star Wars é uma franquia profunda e cheia de significados. Mas como toda história com camadas, muitas vezes, a profundidade política sobre igualdade e resistência se perde no meio das naves, sabres de luz e poderes paranormais vindo de uma “Força”.

Por isso, personagens como os Jedi, clones ou líderes natos se destacam. Principalmente quando apresentados em filmes, seriados ou séries animadas, consumidas também por um público médio. Público que não está realmente a fim de entender que Star Wars é sobre a luta pela democracia contra um governo totalitário e fascista. Veem apenas o bem contra o mal, em um maniqueísmo bem simples e fácil de se engolir.

Doutora Aphra traz o cinza para a composição desse universo. Uma personagem que está longe de ser heroína e muito mais longe de ser admirável. Mas que com tantas camadas e cicatrizes ele transparece realidade em um universo edificado na fantasia.

O equilíbrio da Força

O cinza de Doutora Aphra não está em suas dúvidas sobre lados luminosos ou sombrios da Força. Energia mística que nem sequer é importante em sua história. Mas, ela é cinza por causa da trajetória de sua jornada e das suas escolhas como personagem. Uma arqueóloga que não se importa se está do lado do Império ou dos Rebeldes, contato que ganhe o dinheiro dela para sobreviver. Que não se importa em trair quem ela ama, e nem de fazer crescer a confiança entre seus próximos para quebrá-la. O importante é ela. E não porque ela é má, mas sim porque ela tem cicatrizes, e quanto mais cicatrizes, mais erguemos muro e usamos armaduras.

É essa ambiguidade que faz de Doutora Aphra tão interessante e, por isso, acredito que é o melhor quadrinho da era Disney de Star Wars. Além de ser uma as melhores séries do universo expandido como um todo.

Ambiguidade que faz a gente ora torcer por ela e ora odiá-la, mas sem nunca deixar de acompanhar. Porque essa identificação dos defeitos está em nós, somos bons e maus em uma narrativa distorcida da realidade.

Star Wars é sobre Igualdade

Mas além da ambiguidade moral, Aphra tem um tempero que traz a liberdade e igualdade, sinônimos presente no cânone de Star Wars desde o filme Uma Nova Esperança, de uma maneira extremamente natural e significativa: ela é abertamente homossexual.

E quando eu falo abertamente, entenda que é algo para o mundo real. Esse tipo de questão não tem importância nenhuma no universo de Star Wars. Homossexuais e heterossexuais convivem em normalidade. Muito longe da realidade em que vivemos onde tentam traçar uma linha da “normalidade” pautada por questões morais retrogradas e/ou religiosas (geralmente pautadas por uma frase da bíblia, desconsiderando todas as outras centenas de páginas falando sobre respeito e amor).

Essa naturalidade em trazer a pauta LGBT para o universo Star Wars com total leveza, fez com que Doutora Aphra ganhasse o prêmio de Melhor Quadrinho no GLAAD Awards 2020, premiação com foco em histórias com temas LGBTQIA+ .

Star Wars é sobre Liberdade

Em uma época em que toda a participação das pautas minoritárias ou de maiorias oprimidas são taxadas como “lacração”, “panfletagem” ou “mimimi”, Aphra vem ressaltar, com uma naturalidade surreal, o que é ter liberdade, o que é igualdade e o que é amor.

Vivemos hoje em um mundo, e principalmente um país, que infelizmente as questões de polarização política chegaram às pautas “morais”, e vemos que matar, segregar e banir são considerados atos corretos por muitos.

Por isso, Doutora Aphra vem como uma carga de importância enorme, e não só porque é uma boa história, bem escrita e bem desenhada, mas também, porque assina mais uma vez que Star Wars é sobre liberdade e não há neste mundo nada mais libertador do que você ser quem é. Seja nos tons de cinzas de sua personalidade ou na forma que você ama.

Mas independentemente tom, Aphra vem para dizer: ame. E arrisque-se pela liberdade.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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