A cura do preconceito

Nossa avaliação

Junho é o mês do orgulho LGBTQIAP+ e você pode achar que esse tema está saturado. É arco-íris para todo o lado, empresas se posicionando, marcas aproveitando, a família tradicional e conservadora brasileira entrando em parafuso e soltando o preconceito a torto e a direito. Mas, muito mais do que um mês que falamos bastante sobre respeito a conscientização com pessoas LGBTs, ele traz e escancara assuntos como opressão, repressão a comunidade LGBT que tenta sobreviver em uma sociedade heteronormativa tão hostil. É exatamente sobre a vida e sentimentos de quem se esconde no armário que Mário César vem conversar com a gente na trilogia Bendita Cura.

Azul

Lançada de forma independente em 2018, 2019 e 2021 os três volumes de Bendita Cura conta a história de Acácio, começando em 1965, quando ele ainda era criança e chegando em 2017. Acácio, gay, nasceu em uma família conservadora, cristã e completamente apoiadora do regime militar que regia o brasil naquela época. Seus pais tratavam como anormalidade e doença todas as manifestações homossexuais da criança.

De fato, a homossexualidade (ainda chamada de homossexualismo), era considerada uma doença. Havia tratamento, havia uma promessa de cura, seja ela medicinal ou religiosa. Isso só mudou em 1990 (formalmente, pelo menos) quando a OMS deixou de considerar a homossexualidade doença, e em 1999 foi decretado a proibição de qualquer tratamento ou prática que prometia sua cura.

A grande questão é que Acácio praticamente viveu três décadas em um tratamento de choque (às vezes, literalmente) contra quem ele era. Condicionamento dos pais, internações em clínicas, palmadas e espancamentos paternos e uma criminalização absurda (social e religiosa) sobre quem Acácio era de verdade.

Rosa

Terminei de ler a série e fiquei extremamente tocado. Claro, muito do que senti tem a ver com todo o pesadelo social que o brasil vem vivendo. Há alguns dias um canal de tv por assinatura postou uma explicação sobre a sigla LGBTQIAP+ relacionando cada letra a um ator. Fiz a bobagem de ver os comentários: uma enxurrada de frases preconceituosas e cheias de ódio. Hoje, no dia que este texto é publicado, uma empresa de fast food lançou um vídeo maravilhoso com a percepção de diversas crianças sobre a comunidade LGBT. Crianças que convivem e foram adotadas por pessoas LGBT. Crianças amadas. E o que eu vi? Diversos comentários de boicote, hashtag odiosa no twitter e muito mais preconceitos.

Então, Bendita Cura chega em minhas mãos em um momento tão conturbado do país, em um momento cheio de inversão em que, pra muitos, a exclusão de diversos seres humanos é o correto. Onde a morte de LGBTs, principalmente trans e travestis são relativizadas. E acompanhar Acácio doeu tanto.

Doeu por entrar na mente e corpo daquele personagem e sentir empatia, por meio das páginas de Bendita Cura, às muitas pessoas que sofrem. Doeu por lembrar de cada comentário dentro de minha própria família e do privilégio de ter nascido hétero e cis em uma família preconceituosa. Porque se eu fosse gay, teria sofrido como muitos.

Então eu chorei.

Azul e rosa

O choro veio no meio do volume três em um diálogo de Acácio e sua esposa (sim, mesmo sendo gay ele se casou e teve dois filhos) onde eles conversaram sobre aceitação. E é tão difícil ver que não era só o entorno de Acácio que não o aceitava, mas ele próprio se sabotava. Não por culpa dele, mas sim, porque foi criado dessa forma. Foi criado para odiar quem realmente era.

Lembro-me que chorei muito também quando assisti ao filme Moonlight, porque falava sobre aceitação e esse tema me toca demais. Pois mesmo sendo hétero em uma sociedade LGBTfóbica e heteronormativa tive diversos problemas para me encaixar socialmente, seja por causa da timidez ou simplesmente pelos meus gostos. Imagino então como é muito mais difícil crescer e sobreviver nessa sociedade tão categorizada entre azul e rosa quando você mesmo não se encaixa nesses rótulos.

Por falar em cores, como é magistral a maneira que Mário César colore Bendita Cura. A HQ é colorida apenas nas cores rosa e azul (com exceção do epílogo), nos colocando sob a lente heteronormativa e machista do julgamento das vidas.

Mulheres e tudo que é “de menina” ou feminino, é rosa. Homens e tudo que é “de menino” ou masculino, azul. Mas os LGBTs são apresentados com as duas cores.

Durante a história, repare em Acácio. Em diversas situações da vida dele, Mário César o colore de só de rosa, só de azul, ou com as duas cores. Tudo depende do momento em que Acácio está, sua aceitação consigo mesmo ou e com a opressão externa.

Rosa e Azul

Como queria que esse tipo de história chegasse em todas as pessoas preconceituosas. Mas não apenas para que seja tratada com repúdio ou afronta, mas sim que tocasse o coração dessas pessoas. Que essas narrativas mostrassem como a opressão e o apagamento de cada indivíduo é algo desastroso.

Porque na hora de citar a bíblia para comprovar ideias preconceituosas muitos levantam e apontam o dedo para dizer o quanto LGBTs são “errados”, mas esquecem completamente dos parágrafos sobre amor, aceitação e não julgamento. Esquecem também dos muitos outros parágrafos que abominam diversas práticas que realmente são danosas a sociedade como roubar ou matar, mas roubam (mesmo as pequenas corrupções diárias) e apoiam a morte (seja pelas figuras que estão à frente do governo ou nas frases “bandido bom é bandido morto”).

Bendita Cura é uma HQ muito importante, porque ela dialoga com o público LGBTQIAP+ de maneira tão franca, sendo um local de acolhimento em um ambiente cultural, como os quadrinhos, que é tão machista e LGBTfóbico. Mas também dialoga com héteros ao deixar claro o quanto LGBTs sofrem, e como são as diversas formas de morte. Porque para se morrer, não existe apenas perder a vida. Há mortes emocionais, mortes sentimentais, mortes ao perder o ânimo de viver.

A bendita cura que dá nome ao quadrinho não tem absolutamente nada a ver com tal “cura gay”. Porque o que a HQ Bendita Cura traz a cura contra o preconceito e a intolerância, mas claro, para ser curado é preciso primeiro aceitar que está doente.

Todas as cores

Bendita Cura me fez lembrar de um antigo pensamento meu. Antes achava que um casal de pessoas preconceituosas merecia tem filhos LGBTs para que eles “aprendessem” com os filhos. Já faz um bom tempo que eu não penso mais assim, e ao conhecer Acácio esse pensamento veio à tona.

Criança nenhuma, ser humano nenhum, merece nascer em um lar em que vai ser odiado só por ser quem é. Que não var ser acolhido ou se sentir em segurança no próprio lar. Em que os familiares serão tão cruéis quanto a vida fora de casa, na rua, no trabalho, na escola em um dos países que mais mata LGBTs no mundo.

Então, para todos os Acácios, Acácias e Acácies que estão aí do lado de lá da espiritualidade com vontade de nascer (mesmo neste mundo tão hostil), pode entrar na fila da família que quero criar, porque aqui o que vale é o amor. E amor não tem forma, formato, tamanho, gênero, cor. Amor é acolhimento e todo amor vale.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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