Retalhos de uma vida


Nossa avaliação

A vida muitas vezes pode não ser um lugar confortável para se estar. A insegurança da infância, as indecisões da adolescência, a falta de encaixe da vida adulta, o cansaço da velhice. Mas, infelizmente, não temos como escapar disso. Alguns passam melhores do que outros por algumas etapas, mas, independentemente de certos privilégios, os problemas veem. Vem os desamores também. E os corações partidos, claro. Amores vão e vem, mas tal como tatuagem, ficam marcados para sempre. Sejam as experiências boas ou não, esses amores nos mudam. Craig Thompson conta em Retalhos exatamente como sua vida foi ganhando sentido após viver com seu primeiro amor por duas semanas.

O limbo

Retalhos, lançada em 2009 pela editora Companhia das Letras, é uma Graphic Novel autobiográfica. Craig Thompson conta a história de sua adolescência e infância (essa última por meio de flashbacks). Craig era um garoto que morava no meio oeste americano, em uma cidadezinha de Wisconsin. Morava com os pais, cristão e conservadores ao extremo. Precisava dividir o quarto, e a cama, com o irmão mais novo. Sofria bullying na escola. Era molestado sexualmente pelo baby-sitter. Sofria uma pressão absurda sobre a culpa cristã e a ameaça de ir para o inferno, constantemente repetidas na escola dominical.

Todos esses problemas, alguns na infância, e outros que o perseguia ainda na adolescência, fez Craig ser um rapaz retraído e tímido. Ele desenhava e colocava todas as suas frustrações nos desenhos. Mas, se sentia culpado por “perder tempo” com os desenhos ao invés de fazer o que a igreja dizia e se dedicar unicamente a Deus.

Craig viva sempre no limiar entre fazer as coisas que gostava, mas sofrer absurdamente por ser quem ele era.

Uma infância no inferno

Tem tanta coisa para dizer sobre Craig, mas acho que o que me salta aos olhos no primeiro momento, com tamanha atenção é, com toda certeza, o lance da culpa cristã. É impressionante como um local que teria que ser seguro e confortável, como uma igreja ou uma escola que ensina sobre religião, prendia Craig em mais amarras.

Claro, ele não é o único. Não é o único que não se encaixava com o ideal cristão. Ele era só um rapaz tímido que gostava de arte, mas quantos LGBTQIAP+ são rechaçados e escanteados por religiões? Quantos negros e mulheres sofrem preceitos devido ao fato de que na bíblia está escrito normas de condutas de uma civilização que não existe mais de tão antiga?

Os vales e fossos da religião

Acho religião algo importantíssimo, eu mesmo possuo uma. Mas é necessário demais afirmar que se um local que ao invés de pregar amor e respeito auxilia na propagação de ideias retrógradas que oprimem minorias, segregam e escolhem os privilegiados. Além de fomentar o sexismo, intolerância religiosa e veta completamente a criatividade e sonhos de muitos. Esse local não está cumprindo o papel de religar os seus seguidores com o divino. É apenas mais uma prisão.

Prisão essa que pode apagar completamente o brilho de um gênio, ou mesmo, fomentar ideias de ódio como vimos constantemente no brasil. País esse que um padre que alimenta necessitados é chamado de comunista, ou pastores que se levantam a voz contra políticas genocidas são chamados de esquerdista. Como se caridade estivesse a ver com ideologia política. E se tiver, então prefiro estar do lado caridoso.

É inconcebível a ideia de que é mais importante venerar uma centena de páginas escritas, rescritas, editadas, revisadas e traduzidas de um livro antigo e condenar a caridade. Justamente a caridade que é o ponto inicial do que é ser cristão. Que bem essa instituição religiosa está fazendo para comunidade, então?

Um dia no purgatório

Mas, foi dentro de um acampamento de inverno cristão que a vida de Craig mudou, pois, mesmo em um ambiente que era tão nocivo para ele como a escola, ele pôde conhecer Raina.

Tal qual Craig, Raina era uma desajustada. Não se encaixava na caixa que tanto queriam a colocar e, também, tinha seus próprios traumas e problemas. Como uma família desmoronando com um divorcio em torno, claro, da culpa cristã de não poder divorciar.

Craig e Raina se tornaram amigos e se correspondiam por cartas, já que ela mora em Michigan. Craig desenhava, Raina escrevia poemas. Ele era sozinho, Raina, aparentemente, também. Claro que eles iriam se apaixonar. E no meio de tantas trocas de correspondência, eles decidem passar duas semanas juntos.

Mas claro, ainda eram adolescentes de 16 ou 17 anos, então para fazer isso, Craig teve que convencer a família de que Raina era apenas uma amiga e que a família dela também era cristã. E logo, o garoto ficou como hospede na casa de seu primeiro amor, por duas semanas.

Duas semanas no céu

Para Craig, essas duas semanas sendo hóspede de Raina mudaram completamente sua vida. E não sou ousado a dizer que a vida de Raina também mudou, mesmo esta história sendo contada pela perspectiva do cartunista.

Craig ainda tinha seus traumas, vindos da igreja, do bullying, do abuso sexual e de sua família, mas lá, ao lado de Raina havia uma coisa nova. Havia afeto. Foi justamente esse afeto lhe deu forças para tomar diversas decisões futuras.

E para Raina, Craig estar lá era um bálsamo, pois a vida dela também era pesada com os pais se divorciando, uma irmã mais velha que se casou cedo para sair de casa, e dois irmão com deficiências intelectuais para cuidar. Era muita responsabilidades para uma adolescente. Craig foi um porto seguro. Tanto é que ela o presenteou com um colcha de retalhos feita a mão, com pedaços de panos importantes para ela.

Os dois se amaram. Aquele amor bonito e ingênuo que parece que o mundo inteiro precisa parar para deixá-los viver. Tudo vai ser eterno. Tudo vai ser infinito e para sempre. Muitas vezes, para que possamos atingir a maturidade, acredito que é necessário se deixar sonhar também.

As beatrizes

Li Retalhos pela primeira vez em 2009, quando ele foi lançado. Naquela época tinha 19 anos, foi só agora, 12 anos depois que eu entendi de verdade essa história. Me faltava uma coisa para que ela fizesse sentido: me faltava vida.

Naquela época, eu era um rapaz muito parecido com Craig em questão de timidez, mas diferente na questão cristã (minha família é de uma linha evangélica bem conservadora, mas isso nunca foi um problema para mim). E por ser tímido, ainda não havia passado por relacionamentos amorosos que mudariam a minha vida.

Foi só depois, por volta de meus 21, que tive o “primeiro grande amor”. Avassalador e rápido. Durou poucos meses, mas que enche o peito de carinho ainda só de lembrar. Havia muito respeito ali, mas um choque cultural muito maior.

Aos 24 veio outro. Esse foi dilacerante. Rasgou peito, corpo e alma. Amor e abuso que andavam lado a lado em um comportamento que, às vezes, beirava insanidade. Mas que eu queria estar lá, modificar o cenário, estar junto. E claro, errava muito nessa tentativa.

E só agora, aos 31 e casado, olhar as páginas de Retalho é perceber em mim como meus sentimentos são exatamente como a colcha que dá nome a história: retalhada. Porém, cheia de significados e importância que só alguém que se dedicou um bom tempo para escolher os tecidos certos e costurar poderia ter.

Fim do canto

A vida é isso, uma enorme colcha de retalhos. É preciso se dedicar a costurá-la, e essa dedicação é o próprio ato de viver. E os diversos tipos de panos que estarão nessa colcha, são nossas experiencias. Conforme a colcha cresce, acredito que o resultado sempre vai ser uma bagunça de cores e texturas, mas não é para ser bonito não, é para aconchegar.

Terão retalhos velhos, furados, queimados e as vezes podres. Muitas vezes até muito mais do que gostaríamos para dizer que esta colcha vai nos proteger de um frio. Porém, o resultado dela não precisa ser um edredom grosso, pode ser uma mantinha surrada, porque o aconchego não precisa ser no calor que a colcha vai proporcionar, mas no quentinho do coração de saber: ufa, vivi!

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.


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