Batman, ser ou não ser

Inspirado pelo Batman Day, fui até minha prateleira de quadrinhos e mexi nas minhas HQs do Batman. Coleciono quadrinhos desde meus 13 anos, hoje tenho 31, e durante organizações e mudanças eu já doei e vendi para sebos muitos dos meus quadrinhos. Mas aqueles que considero clássicos ainda ficaram. No caso Batman foram muitas sagas, mas teve uma HQ, já considerada como um clássico moderno e que inspirou um pouco o novo filme do Homem Morcego, que resolvi reler para conversar um pouco sobre ela: Batman: Ego.

Ego

Batman: Ego foi escrita e desenhada por Dawyn Cooke e lançada originalmente em 2000 nos Estados Unidos. Aqui no brasil, o especial saiu a primeira vez em 2003, pela Editora Mythos e este ano, 2021, voltou a sair por aqui, mas agora pela Editora Panini em um encadernado com outras histórias com o roteiro ou ilustração de Cooke.

Na história, Batman está perseguindo um capanga do Coringa para descobrir onde estava o dinheiro de um roubo. Coringa havia acabado de ser preso, mais uma vez, e o capanga estava fugindo. Sem saber que o Batman estava em seu encalço, o capanga tenta se matar e é salvo. Porém, o bandido admite que a vida dele acabou: o Coringa não ficará na prisão por muito tempo e a vida dele voltaria ser controlada pelo Palhaço do Crime, então, para acabar com o ciclo, o capanga matou a mulher e a filha e queria se matar.

Depois de ter confessado, o capanga se mata na frente do Batman, deixando um Homem Morcego com um sentimento de culpa. Voltando à Batcaverna, Batman começa a ter um diálogo com ele mesmo, ou melhor, com o seu próprio Medo para decidir quem tinha que controlar quem a partir de agora.

Matar ou não matar

Batman: Ego é um exercício de recontar a origem do Batman e passar por momentos importantes de sua história dentro de uma única narrativa, como um resumão, durante a conversa de Bruce Wayne com seu Medo. Vemos a morte dos pais de Bruce, o surgimento do Coringa e do Duas-caras, além dos motivos de Batman ter o Robin (ainda o jovem Dick Grayson) como parceiro.

Porém, o que mais é colocado em pauta neste diálogo é se Batman tem que matar ou não. O Medo de Bruce avisa que a única maneira de parar loucos como o Coringa é os matando, e que apenas prendê-los, não faz do Batman alguém que não mata. Pois os bandidos, no caso o Coringa, podem, e provavelmente vão, sair da cadeia e quando fizerem isso vão matar pessoas. Logo essas mortes também serão de responsabilidade do Batman. Em contrapartida, Bruce diz que nunca assassinará alguém a sangue frio.

O fato do Batman matar ou não sempre foi pauta sobre o personagem. Porém, ele não assassinar alguém a sangue frio, não quer dizer que indiretamente ele não seja responsável pela morte de pessoas. Logo, a linha tênue sobre isso sempre fica em como cada autor expressa esse tipo de comportamento visualmente em sua narrativa. Mas é fácil amenizar a violência em quadrinhos e animações, mas quando falamos dos filmes? Será que lá pode matar?

Licença para matar

A cada nova versão live action do Batman vemos que os diretores e roteiristas tentam trazer aspectos reais para ele. Dentre todas as versões do Batman, eu destaco os filmes com um toque de terror gótico de Tim Burton, Batman: o Filme (1989) e Batman: O Retorno (1992), a trilogia de Christopher Nolan, Batman Begins (2005), Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), e as versões de Zack Snyder em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e Liga da Justiça (2017) (com uma pontinha em Esquadrão Suicida, de David Ayer).

Todos esses Batmen matam. Talvez o único que fala que não mata, é o Batman interpretado por Christian Bale na trilogia O Cavaleiro das Trevas. Mas dizer que não mata, não quer dizer muita coisa, porque ele claramente coloca os vilões em situações de morte e não os salva, deixando “morrer sozinhos”. O único que ele curte mesmo salvar é o Coringa. Porém, Michael Keaton, o Batman do início dos anos 90, e Ben Affleck, o Batman do atual universo cinematográfico da DC, matam na boa mesmo. Explodem carros e interiores de locais cheio de pessoas sem nenhum remorso.

Será que com o realismo e a verossimilhança trazida pelos filmes nas telonas fica tão difícil de tentar trazer o impacto do Batman não matar? Em Batman: Ego, Cooke deixa claro que isso pode ser uma ilusão. O fato do Batman existir vai gerar mortes, mesmo que ele não mate diretamente as pessoas, mas isso é o preço e o peso da responsabilidade das escolhas de Bruce Wayne. Mas nos filmes, esse peso vai embora?

Do Ego à Vingança

Essa provocação deixada por Cooke de que “o Batman pode não matar, mas ele é responsável pela morte indireta das pessoas que o circula”, como os capangas, vítimas e outras atingidos por essa “guerra contra o crime” travada por Bruce Wayne, parece servir de pauta para o roteiro do novo filme do Homem Morcego, The Batman, que chega aos cinemas no ano que vem.

Um reboot do personagem, que agora será interpretado por Robert Pattinson (Saga Crepúsculo, O Diabo de Cada dia, O Farol), estava programado para sair em outubro deste ano, mas teve sua data alterada por causa da pandemia (que interferiu diretamente nas gravações do filme). Dirigido por Matt Reeves (Planeta dos Macacos: O Confronto e Planeta dos Macacos: A Guerra) Batman agora é um vigilante no início da carreira (algo próximo ao segundo ano) e que ainda precisa diferenciar o que é a vingança e o que é a justiça, balanceando em suas atitudes a violência com a morte.

Reeves provavelmente vai trazer o Batman mais próximo da realidade já feito. E me anima muito saber que a questão sobre a morte será pauta, talvez não da mesma maneira lúdica de Batman: Ego, mas já  que The Batman tem inspirações nesta HQ, é fácil entender que as ações do Homem Morcego não vão estar pautadas apenas na estética do filme, como outros que mostravam grandes explosões e tiroteio com um metralhadora acoplada no Batmóvel, e sim algo mais visceral, entendendo o impacto sobre a mortalidade de ser um vigiante tão violento quanto o Batman.

Ecos do Ego

Mas então: o Batman mata? Cooke deixa claro: o Batman não mata. Não diretamente, mas ele tem a consciência de que as mortes causadas por ele também são de sua responsabilidade. Talvez essa palavra seja mais importante do que matar ou não: Responsabilidade. Nas versões live action do Homem Morcego é fácil vermos uma irresponsabilidade do personagem em detrimento a criação e cenas de ações com impacto.

Matt Reeves e Robert Pattinson têm em suas mãos o potencial de trazer um dos melhores Batman já feitos, por vários motivos: 1 – A direção visão de Reeves; 2 – A atuação fantástica de Pattinson, que longe da Saga Crepúsculo se mostrou um dos maiores atores desta geração; 3 – O elenco de apoio com Zoë Kravitz (Mulher-Gato), Paul Dano (Charada), Colin Farrell (Pinguim), Jeffrey Wright (James Gordon), Andy Serkis (Alfred) e John Turturro (Camine Falcone); 4 – As referências nas HQs Batman: O Longo dia das Bruxas e Batman: Ego; 5 – Trazer para o personagem mais do que heroísmo cego ou violência gratuita, mas sim, a responsabilidade sobre seus atos.

Bruce Wayne escolhe combater a criminalidade com igualdade, indo até as ruas para remediar com a violência. Ele não escolhe tratar, ele não escolhe caminhos alternativos. Bruce vê, de maneira particular, que a única forma de acabar com a criminalidade de Gotham City é com a violência. Isso faz parte da narrativa da criação deste personagem. Mas o que não faz parte, são as consequências. Darwyn Cooke faz uma história tocante sobre as consequências colocando-a como pauta, e Matt Reeves, pela primeira vez nos cinemas, também falará sobre elas.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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