Querida criança que existe em mim

Na próxima terça-feira é feriado, 12 de Outubro. Neste mesmo dia, é comemorado o dia das crianças. Por isso, dei alguns passos para trás para lembrar um pouquinho da infância. Rememorar que foi ali, naquela época, que eu comecei a ler quadrinhos, assistir desenhos animados sobre super-heróis, me apaixonar por Star Wars e outras histórias de fantasia e ficção. E nessa nostalgia, resolvi falar um pouco da HQ Querida Liga da Justiça de Michael Northrop e Gustavo Duarte.

Querida criança

Querida Liga da Justiça é uma HQ infantil lançada pela DC Comics em 2019 e que chegou aqui no brasil em 2020 pela editora Panini. Na história, cada integrante da Liga da Justiça separa um tempo em seu dia para ler e responder e-mails de crianças que são suas fãs. Enquanto eles respondem, ainda são conduzidos por uma pequena trama para salvar o mundo de uma invasão.

O roteiro do autor de livros infantis Michael Northrop tem uma condução muito orgânica e coloca os heróis em histórias bem humanizadas, mas sem que eles percam aquele ar de “super”. A Liga responde perguntas como “se o Superman erra”, ou se “o Aquaman tem cheiro de peixe” ou se a “Moça-Gavião mata pequenos roedores”. Perguntas simples e que qualquer criança poderia fazer.

Os desenhos de Gustavo Duarte merecem uma atenção toda à parte. Sou fã dele desde a época que ele era cartunista em um jornal de esporte, na mesma época que lançou sua HQ independente Có!. Duarte parece ter nascido para fazer desenhos bem-humorados, que são agradáveis para crianças e para adultos.

Querido adulto

Aliás, eu tô falando muito de adultos, né? Isso porque acredito que mesmo Querida Liga da Justiça seja um quadrinho voltado para o público infantil, ele tem que ser uma leitura fundamental para adultos e vou explicar por quê.

Me arrisco dizer, sem medo de hipérboles, que quase todas as pessoas que hoje são fãs de super-heróis, quem leem quadrinhos e que consomem os filmes entendendo cronologias, easter eggs e referências, tiveram o primeiro contato com esse mundo ainda na infância.

Essas mesmas pessoas que hoje reivindicam filmes “mais adultos” ou personagens com os mesmos gêneros e etnias das HQs e quadrinhos do passado. Esses adultos que de maneira apegada e egoísta dizem “acabaram com minha infância” quando têm contato com alguma história que não gostaram. Sem nem ao menos perceber que essas histórias não são mais para eles, mas sim, para as novas gerações.

Adultos que se apropriam dos heróis e da fantasia alegando serem fãs, mas se acham donos das franquias. Adultos que ao invés de se deixar divertir se endureceram e se tornaram esse tipo de nerd insuportável que reclama de cada decisão de uma editora ou de um estúdio.

Querida diversidade

Querida Liga da Justiça não é só uma leitura para criança, é também, e é ótima. Mas é uma leitura para adultos, principalmente para lembrar àqueles que acham que seus filmes têm que ser todos “adultos e realistas” e os personagens têm que refletir sua vontade como fã.

Desculpa, querido adulto, essas histórias não são mais sobre você. Mas sim, sobre uma nova geração de crianças que vive em um mundo muito mais diverso. Uma diversidade que abraça LGBTQIAP+, mulheres, negros, indígenas, orientais, PCDs e diversas outras etnias e minorias. Diversidade que precisa ser representada no cinema, nos quadrinhos e em todas as histórias.

Assim, ler Querida Liga da Justiça pode ser um exercício de se fazer criança de novo, mas nos tempos atuais, para que você possa ver com um olhar de maior aceitação como é ser criança hoje e deixar de tentar exigir histórias que massageiem seu ego de adulto mal resolvido.

Querida nostalgia

“Mas eu não aceito que acabem com minha infância”, você pode bradar. Não tem problema não, os filmes antigos estão presentes em aluguéis virtuais e, também, nos serviços de streaming. As animações antigas não passam mais em TV aberta, mas são encontradas nas assinaturas de Disney+, HBO Max entre outros. Os quadrinhos antigos são constantemente relançados em coleções clássicas.

As histórias da sua infância continuam existindo, servindo para um propósito de ser o recorte de uma geração. Mas agora, um novo recorte existe. Um recorte em que, nos cinemas, Supergirl e Batgirl são atrizes latinas, que existirá um Superman Negro, que personagens LGBTs terão mais protagonismo e que personagens femininas não são mais sexualizadas.

E se essas mudanças estiverem “ferindo” sua infância, não tem problema, você pode se trancar no quarto da memória e só rever as histórias antigas e balbuciar “ah, essa época era boa”. Exatamente como os mais velhos do que nós, falam quando assistem as sérias dos anos 1960 e 1970.

Querida evolução

Esse comportamento apegado com a nostalgia é inerente do ser humano, mudar é difícil e aceitar a mudanças do entorno é pior ainda, porque nos coloca como destacados, ultrapassados. Mas por que não fazer um exercício? Por  que não se deixar entender por essa nova geração. Por que não aceitar?

Pois aí, nessa aceitação, você pode curtir as histórias atuais, abraçar as narrativas novas e entender como as histórias de hoje tentam dialogar com mais pessoas. Pessoas que talvez sejam bem diferentes de você que está lendo este texto.

Então, leia Queria Liga da Justiça, deixe-se ser criança ainda hoje, agora que você já é um adulto. Recentemente a Panini lançou a sequência Queridos Supervilões, leia também para essa ideia se reforçar. E divirta-se, não esperando que a sua criança, aquela que existiu há 20 ou 30 anos atrás, seja massageada, mas sim, a criança que existe hoje em você e que está aberta para aprender e gostar dos mundos fantásticos que forem apresentados.

Envelhecer é escolha.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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