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Os Cinco Trabalhos de Singer

por Rodrigo Campanella

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Há uma década os executivos de Hollywood pelejavam para tirar o projeto do Super-homem do chão. Primeiro, faltava a atmosfera de oportunidade. O início dos anos 90 havia transformado a parceria (frágil) entre super-heróis e cinema em um casamento completamente falido, com pérolas como “O Justiceiro” com Dolph Lundgren e um monumento ao mau-gosto chamado “Capitão América” – fora os Batman e Robin’s da vida. Só a partir do sucesso de Bryan Singer e seu primeiro filme mutante (00), seguido pelo “Homem-Aranha” de Sam Raimi (02), o pó de um possível roteiro com o homem-de-aço seria definitivamente espanado.

Em segundo, faltava “o famoso”. O jogo era descobrir qual grande nome do cinemão iria interpretar o homem do S no peito. Ashton Kutcher, Nicholas Cage, Josh Hartnett, Brendan Fraser e até o jovem Superman Tom Welling entraram no páreo. Isso, até que Singer e os produtores optassem pelo óbvio: para dar ao Super mais destaque e evitar salários bilionários, nada melhor que um novato, cara de um focinho do outro com Christopher Reeve, o Super consagrado do cinema – que era, ele próprio, um desconhecido na época de “Super-homem: O Filme” (78). E o papel literalmente caiu no colo de Brandon Routh, que só havia feito teste para o papel num outro projeto do filme, que nem foi para frente.

Liberdade de criação e dinheiro seriam outros problemas, não fosse o tamanho da aposta da Warner Bros. Tendo literalmente roubado Bryan Singer de “X-Men 3”, no qual ele já era dado como certo, o estúdio abriu os cofres e aceitou a história proposta pelo diretor. Foram cinco meses de pré-produção só para deixar Routh pronto para vestir a capa vermelha. Elenco escalado, dono do uniforme escolhido e dinheiro a rodo, tudo ia bem. Mas é aí que teriam início os cinco desafios de Bryan Singer. Que você acompanha a partir de hoje, um por dia, aqui no Pílula Pop:

Trabalho 1: Coroar a sombra de Donner, que vive ao alto do Planeta Diário

Sucesso de bilheteria até “Premonição 3” consegue. Permanecer na memória cinematográfica de duas gerações, já não é tão fácil. “Superman: O Filme”, de 1978, foi tão forte que redefiniu a imagem do homem-de-aço nos quadrinhos. Christopher Reeve é quem deu rosto definitivo ao Super, e não o contrário. E por trás do filme, fazendo tudo funcionar tão magicamente bem, estava o mesmo homem que fez o original de “A Profecia” e a série “Máquina Mortífera”. Não se trata de saber se o novo filme será melhor ou não: a questão é se ele dará seguimento ao mito de quase 30 anos atrás.

Manual do dia: Resenha de “Superman: O Filme”


Trabalho 2: Trazer do fosso das décadas o busto de Reeve

Foram os fãs que construíram o mito em torno de Christopher Reeve, o portador da capa vermelha do filme de 78 até “Superman IV”. De um lado os que já gostavam do personagem nos quadrinhos, de outro os que se afeiçoaram pelo Super-homem das telas, mas nunca encararam bem a empáfia ocasional do Super nas revistinhas. Reeve foi o ponto de concordância entre esses dois grupos. Você pode argumentar que fãs nem sempre tem bons argumentos. Mas Reeve acertou na mistura do garoto do interior com o homem que não pode suar frio. E, com malícia, criou um Clark que nunca cai naquela chatice de ser apenas o bom moço. Ou seja, abriu uma bela estrada para Brandon Routh.

Manual de trabalho: Resenha de “Superman II: A Aventura Continua”


Trabalho 3: Laçar Brandus e Hackmanus, os guardiões do portão da lenda

Não precisa nem entrar no mérito de que era Mario Puzo (autor de O Poderoso Chefão) quem estava por trás do roteiro de “Superman: O Filme” e “Superman II”. Basta dizer que, na frente da tela, era Marlon Brando que emprestava um pouco de seu próprio mito para dar vida a Jor-El, pai do Super. E Gene Hackman, no auge da ironia, era capaz de fazer Luthor com um pé amarrado nas costas. No novo filme, a bola da vez fica a cargo de Kevin Spacey (Beleza Americana) e do próprio Brando, remasterizado em som e imagem digitais. É, algumas coisas não tem como mudar.

Manual de trabalho : Resenha de “Superman III”


Trabalho 4: Costurar com fio de ouro as asas do Morcego de Nolan

Lá no fundo, a disputa entre o homem-de-aço e o morcegão para definir qual o modo certo de se fazer justiça é disputa de território pura. Nesse caso, o Batman chegou antes na corrida da volta ao cinema, inclusive inaugurando a fórmula “nome do super-herói mais verbo no presente em inglês”. O filme de Christopher Nolan com o morcego valeu muito por trazer alguma seriedade à franquia – apesar de ainda ser difícil elogiar aquelas seqüências de ação. Bryan Singer tem agora pela frente a missão de fazer o carisma do Super-homem superar a empáfia de ele ser colocado como ‘o salvador do mundo’. Se conseguir, é o público que colhe os louros.

Manuais de trabalho: 1) DNA de Bryan Singer; 2) resenha de “Batman Begins”


Trabalho 5: Destruir os portais para a Ilha do Esquecimento e da Desilusão

Sinceramente: escolheram a pior cena de Kevin Spacey no longa para o trailer final – ele é dezenas de vezes melhor como Luthor do que aquele ataque histérico. Escolheram a pior montagem imaginável para o último trailer – o filme é bem mais simpático do que aquilo. Mas ruim mesmo seria se Bryan Singer se achasse a última pipoca do balde e resolvesse fazer seu Superman com uma cueca de couro por cima da calça ou com um Telefone Kryptoniano com o qual ele falasse com seus antepassados. Não é o caso. Diante desse último trabalho, “Superman – O Retorno” abre uma porta para o futuro. Não é nenhum trem para as estrelas, mas dá prazer de assistir. Ainda que a emoção, bem, tenha ficado pra próxima.

Manuais do dia: 1) um perfil de Smallville!; 2) a resenha de “Superman – O Retorno”

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