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Capuccino com pimenta

31.05.05

por Daniel Oliveira

Tempero da vida

(Politiki Kouzina, Grécia, 2003)

Dir.: Tassos Boulmetis
Elenco: Georges Corraface, Ierojlis Michaelids, Renia Louizidou, Stelios Mainas, Tassos Bandis

Princípio Ativo:
Especiarias

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Lembra o tempero da comida da casa dos seus avós? Aquele, bem gostoso, da sua infância, que você nunca mais conseguiu encontrar em nenhum outro lugar ou época, embora nunca tenha deixado de procurar? A história da perda desse sabor e da sua busca é o mote de “Tempero da vida”, simpático filme grego dirigido por Tassos Boulmetis.

O longa conta a história de Fanis, garoto grego que cresce com a família na Turquia no fim dos anos 50, mas é obrigado a partir para a Grécia, quando o conflito entre os dois países se acirra. O roteiro foca a relação do menino com o avô, Vassilis, um vendedor de especiarias, “especialista” em culinária e filosofia. Com a partida, os dois se separam e Fanis passa a esperar a visita de Vassilis, o que se torna ainda mais difícil com o início da ditadura militar na Grécia na década de 60.

Passada em três fases, a história de Fanis utiliza metáforas culinárias aos montes e consegue tratar de um tema político através do drama pessoal. A separação do protagonista e seu avô, e a perda da infância que isso representa, é um retrato dos efeitos da ditadura militar no país. Mais que isso, é uma perspectiva das conseqüências dos conflitos étnico-nacionalistas, espalhados pelo mundo, olhadas pelas pessoas envolvidas.

“Tempero da vida” consegue ser sutil como um manjericão em um bom molho de tomate e, ainda assim, envolvente e aconchegante como um capuccino em um dia frio. Tratando da comunidade grega, o filme apresenta seus costumes e cultura com bom humor, sem estereótipos apelativos – ao contrário de “Casamento grego”, bobagem exagerada que fez um tremendo sucesso nos cinemas em 2002.

O filme conta com boas atuações e com roteiro do próprio Boulmetis, um tanto quanto autobiográfico, já que ele também nasceu em Constantinopla e foi para a Grécia em 1964. Ele só peca no desenvolvimento de uma relação mal resolvida de Fanis com Saime, seu primeiro amor que, retornando ao final, torna o terceiro ato muito longo e arrastado. A narração em off, acompanhando a história pelos sentimentos do protagonista, apesar do olhar irônico que arranca boas risadas, ainda deixa a impressão de que a estrutura do longa talvez coubesse melhor em um livro. O que não estraga um filme agridoce, em que a melancolia humana sente o amargo da vida lentamente substituir o doce apimentado da infância.

Pena que nesta fonte não rolam caracteres gregos, dariam uma ótima legenda

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