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Era um garoto que como eu amava cinema e Jimi Hendrix

30.12.04

por Daniel Oliveira

Os sonhadores

(The dreamers, Itália/França/Inglaterra/EUA, 2004)

Direção: Bernardo Bertolucci
Elenco: Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, Robin Renucci, Anna Chancellor

Princípio Ativo:
Sexo e revolução coreografados para cinema

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Se o cinema é uma religião, “Os sonhadores”, de Bertolucci, é a missa. Dez razões para isso:

1) O longa é uma confissão de fé e paixão ao cinema, em que o diretor homenageia seus filmes favoritos.

2) Estruturada em tricotomias, a obra de Bertolucci pode ser alicerçada no trinômio cinema-sexo-política.

3) A 7ª arte tem sua história reinventada através da trajetória dos protagonistas. A reclusão dos três no apartamento é a metáfora da sala escura, que isola os espectadores dos problemas externos - o que eles vivem ali é cinema, enquanto nas ruas o maio de 1968 acontece. A sua relação reflete as três fases do cinema: a inocência da era muda, reforçada pela linguagem corporal, quando se conhecem; o prazer e a beleza do período clássico, no desenvolvimento da amizade; o questionamento do cinema moderno, quando Matthew (Michael Pitt) se pergunta o que eles estão realmente fazendo no apartamento.

4) Três vertentes da política se encontram nos personagens de Theo (Louis Garrel), o pensamento revolucionário que age; seu pai (Robin Renucci), um poeta desencantado e anarquista acomodado; e Matthew, que se declara um pacifista - o revolucionário utópico irrealizado.

5) O sexo tem seu vértice na bela Isabelle (Eva Green), que desperta desejo e medo com sua volúpia. Na tradição de Bertolucci, em que sexo é prazer, castigo e transformação, a fotografia de Fabio Cianchetti compõe belos planos com os corpos dos três jovens, num explícito que não é gratuito (“Ken Park”) nem etéreo (“Filme de amor”).

6) A trilha mescla o rock’n’roll e o clássico, reflexo da discussão sobre contestação política e cinema.

7) Cenas e diálogos têm múltiplas interpretações e significados, como no jantar em que o discurso sobre um isqueiro mostra como Michael se encaixa de imediato no ambiente da família de Theo e Isabelle.

8) A teoria de que, em uma revolução, o que importa é a transformação do sujeito e não os motins nas ruas. “Os sonhadores” é sobre maio de 68, mas não explora as imagens redundantes das manifestações. Os conflitos vividos pelos personagens no apartamento é um retrato muito mais interessante do que aquele período representa.

9) Uma metáfora do final do filme, em que Bertolucci prova que o socialismo utópico só se realiza no cinema: o povo se farta de vinho e prazer, numa comunhão provida pelo “Estado” (ou o responsável pela ordem).

10) A beleza das imagens e interpretações é tão apaixonante que, mesmo o filme sendo um banquete de referências cinematográficas, não é preciso conhecê-las para comungar de seu sabor.

Você não tem que ser um expert para apreciar “Os sonhadores”. Basta amar o cinema. Nesse caso, o filme é obrigatório. E quem sou eu para dar nota a Bernardo Bertolucci.

“Os sonhadores”: beleza, prazer e política na tela do cinema

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