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Xeque-mate à la cinema francês

06.01.06

por Daniel Oliveira

Reis e rainha

(Rois et reine, França, 2004)

Dir.: Arnaud Desplechin
Elenco: Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Catherine Deneuve, Maurice Garrel, Nathalie Boutefeu, Magalie Woch, Valentin Lelong

Princípio Ativo:
Xadrez e melodrama

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Já se perguntou porque é a rainha a última a sucumbir no xadrez, e não o rei? Devo admitir que não sei jogar e não tenho uma resposta definitiva à questão acima. Mas “Reis e rainha” gera algumas boas divagações a respeito. Com uma sutileza e um paralelismo das tramas que lembram Robert Altman (Short cuts) e Paul T. Anderson (Magnólia), o filme mostra como homens e mulheres encaram momentos difíceis de formas diferentes.

Nora é uma curadora de artes que assiste ao sofrimento dos últimos dias do pai canceroso; e seu ex-namorado, Ismael, é um violinista internado pela irmã em um hospital psiquiátrico. Não por acaso, o ritmo e as atuações do segmento de Nora pendem mais para o melodrama, enquanto a confusão e os personagens do universo de Ismael estão mais próximos de uma tragicomédia.

A história parece girar em torno dos homens: Nora deve se ocupar da doença de Louis, o pai; da presença de uma figura paterna para Elias, seu filho; do futuro casamento com Jean Jacques, seu namorado; e de se livrar do fantasma de Pierre, pai de Elias, do relacionamento complicado que teve com ele e de sua morte trágica.

O roteiro e a direção de Arnaud Desplechin, porém, mostram que o poder está na mão dos reis – o centro do mundo pode ser o homem – mas é a movimentação da rainha nos bastidores que dá o tom de suas ações. Reis podem dar início a guerras, mas são as rainhas que sobrevivem a elas, seguindo em frente e carregando o peso de suas decisões. Os personagens masculinos de “Reis e rainha” têm seus problemas, mas são as mulheres que dão prosseguimento à história.

Para um homem, pode parecer despropositada, e até demonstrar certa frieza, a primeira decisão de Nora, após saber do estado terminal de seu pai: pedir a Ismael que adote Elias – já que o avô era a principal figura masculina para o menino, que não gosta de Jean Jacques. Da mesma forma, é uma decisão radical da irmã do violinista que o coloca no hospital. Mas é esse tipo de “pragmatismo doméstico”, que um texto póstumo de Louis define tão bem como uma confusão de amor e arrogância, que o filme ilustra, em seus bons e maus efeitos.

Perto da força do trabalho da protagonista Emmanuelle Devos (apesar de sua voz irritante) e de seu segmento, as seqüências de Ismael ficam em segundo plano, dando ao filme um caráter bem mais feminino. Mesmo no louco universo do violinista, o destaque é outra mulher, Arielle, uma suicida que ele conhece no hospital, interpretada com realismo impressionante pela atriz Magalie Woch.

Contudo, “Reis e rainha” peca na longa duração - alguns diálogos podiam ser diminuídos e outros são exageradamente melodramáticos, como aquele entre Nora e sua irmã após o enterro do pai. Ainda assim, é um retrato mais denso e sério desse xadrez contemporâneo, de rainhas ambíguas e reis perdidos, do que clichês excessivamente simplistas e leves, como o recente “Em seu lugar”.

A protagonista: sorte sua que fotos não falam

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