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Comprando a piada

19.09.06

por Rodrigo Campanella

Dois é bom, três é demais

(You, me and Dupree, Estados Unidos, 2006)

Dir.: Anthony & Joe Russo
Elenco: Owen Wilson, Kate Hudson, Matt Dillon, Michael Douglas, Seth Rogen

Princípio Ativo:
canastrice, original ou esforçada

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Eu ri nesse filme. Dei algumas gargalhadas até. Dois dias depois, tentando lembrar o que tinha despertado tanta graça, só lembrava de uma piada. Também foi estranho perceber, numa sala cheia, apenas eu e mais umas oito pessoas achando divertido. Normalmente acontece o contrário.

Não dá para esconder uma coisa: eu estava bem cansado mesmo. E com boa vontade para algo que me fizesse dar risada. “Dois é bom, três é demais” conseguiu – não por mérito meu, mas dele. Mas ficou a impressão de gás hilariante injetado, acertando na veia mas sumindo sem deixar nem poeira depois.

Avaliar a importância desse filme para a história do cinema em 2006 é uma piada tão grande e refinada que eu não sou capaz de contar. Não é filme para alterar rumos ou oferecer algo mais. Se você costuma assistir comédias, românticas ou não, vai prever uma porção de gracinhas e até falas completas. Eu sabia, eu previa, e ri. Um tanto.

Tudo está em se você compra ou não o filme. “Dois é bom...” não é comédia de situações ou de personagens, mas de atores. Para comparar rapidamente, “Esqueceram de mim” tinha bons atores mas se sustentava nas seqüências (e personas) bem-armadas de pastelão. Você podia não agüentar a cara do Culkin, mas era difícil conter o riso.

No filme atual, se você não suporta o Owen Wilson e odeia a cara de canastrão do Matt Dillon, esqueça. Nem a Kate Hudson, que já foi melhor nos cachinhos ruivos de “Quase Famosos” mas ainda consegue ser um tinto fino de malícia com elegância, vai salvar seu filme. Professorinha de escola infantil, ah, conta outra.

Ela é a recém-esposa que tem que agüentar Dupree (Wilson), o amigo boa-praça e inoportuno do recém-marido (Dillon) como hóspede. Michael Douglas fecha o quarteto de nomes famosos como o ator que não leu o roteiro antes de rubricar o contrato e amarga um dos papéis mais deslocados do ano, o de pai da moça.

A questão toda é se você consegue aceitar o estilo canastrão de Dillon e a interpretação propositalmente canastrona de Wilson de bom grado. Canastrões como a própria vida às vezes parece, mas não canalhas. É o que não deixa esquecer que, apesar de estar em um filme com toda maquiagem de sitcom, isso não é imitação da vida, mas um pacote de pipocas – para achar gostoso dentro de uma sala escura e fechada, não mais que isso. E sobra de rebarba uma visão interessante (para um filme desses) de que casamento nunca pode ser uma redoma fechada. É uma das poucas coisas que permanece na cabeça quando se atravessa a porta rumo à luz de shopping lá fora.

Owen afirma seu lugar no cinema atual:
só ele consegue essa cara de coitado.

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