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Pagando caro demais

13.03.07

por Rodrigo Campanella

Norbit

(Estados Unidos, 2007)

Dir.: Brian Robbins
Elenco: Eddie Murphy, Thandie Newton, Terry Crews, Cuba Gooding Jr., Clifton Powell

Princípio Ativo:
autofagia

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Cobain

Se Kurt Cobain encontrasse Eddie Murphy hoje, diria a ele “Eu já consegui, você continua tentando”. De qualquer ângulo, a frase é verdadeira. Ao extremo, o que um fez com a vida o outro tenta com a carreira.

Quando o negro nas telas americanas tinha que se contentar com a glória de ser o bondoso e sábio pai ou mordomo ou professor de família, Murphy foi Axel Foley. Tira de Detroit, era na caipira Beverly Hills que ele exercitava à vontade a velocidade dos pés, da lábia e do raciocínio, deixando léguas para trás os parceiros brancos, rascunhos perfeitos do americano padrão. “Um Tira da Pesada” estampou Murphy nos muros do estrelato.

Nesse tempo em que Jamie Foxx seria sempre o taxista de “Colateral”, Foley era provocador não pelas piadinhas mas pelo fato de estar ali, ser cérebro e pernas de um filme. Mas era também o lugar em que Murphy permaneceria trancado. “Norbit” é o capítulo crucial da não-trajetória que se seguiu. Ironicamente, possui um estupendo trabalho de maquiagem - sob o qual o astro desaparece.

Murphy

Se há graça em “Norbit”, é o constrangimento. Não que as piadas sejam infames. Elas simplesmente pegaram um ônibus para Miami e não voltaram mais. Não é que o astro, respeitável indicado a um Oscar, tenha implodido. É que Murphy não pode evitar a vontade de ser novamente devorado pela América.

O público vibra e torce para ele, e seu carisma inevitável, não para seu personagem, o insípido e inodoro Norbit. Mas não é o bastante. Com história de Eddie e do irmão, Charles, “Norbit” devia ser uma Ferrari para Murphy. Ele é o casal principal (Norbit e a ogranesca Rasputia) e o melhor personagem (Mr. Wong).

Mas é um mercado onde o sonho é que latas de filme brotassem como latas de feijão cozido na prateleira: de uso fácil, para boas famílias. E então “Norbit” se costura com piadas amaciadas, uma arrasada não-direção para uma não-história, efeitos especiais safados, um romance inexistente e personagens que são rabiscos infantis. Um bom riso é sempre uma provocação. Mas Eddie Murphy deseja é ser rótulo de cereal.

Sagdiyev

Num efeito didático, “Norbit” guarda tudo o que não é no Sr. Wong, dono do restaurante/orfanato onde o protagonista (“Outro bebê preto! E muito feio”) é abandonado. Racista ao cubo, aspirante a pescador de baleias, Wong (feito por Murphy), é um espelho límpido e ácido da América: um Borat interior. Só não é o bastante para equiparar o companheiro do Cazaquistão que, mesmo buscando a crítica mais cretina do mundo, salvava por um fio seu filme.

Ninguém nessa foto não é Eddie Murphy.

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