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Salve simpatia

10.08.07

por Rodrigo Campanella

Sem Reservas

(No Reservations, Estados Unidos/Austrália, 2007)

Dir.: Scott Hicks
Elenco: Abigail Breslin, Catherine Zeta-Jones, Aaron Eckhart, Patricia Clarkson, Bob Balaban

Princípio Ativo:
leite condensado

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Um roteiro na mão de um diretor é um pacote de possibilidades. Na engrenagem de produção hollywoodiana, ele vem com alguns anexos: os palpites do produtor, um elenco semi-escalado, o orçamento definido. A forma de juntar tudo é a de um quebra-cabeça com uma diferença crucial: num filme, o modo como cada peça é encaixada cria uma nova figura possível.

“Sem Reservas” não é um jogo de mil e quinhentas pecinhas com a estampa de um detalhado castelo no norte italiano. É um jogo de peças grandes, poucas e bem coloridas, que na caixa seria recomendável para idades até seis anos. Na tampa estaria a foto de uma bonita cozinheira viciada em trabalho (Zeta-Jones), comandante autoritária porém gentil das panelas de um restaurante, que ganha de presente uma sobrinha órfã encantadora (Breslin) e um auxiliar-cozinheiro cantador de ópera e phd em macarrão (Eckhart).

Mas é com essas peçonas, de pouca espessura, que o diretor Scott Hicks monta um quadro absolutamente simpático de um mundo sonhado menos cínico, uma das especialidades do cinema de muitas décadas atrás. O ar de fábula rasa da história deixa claro – isto é um sonho filmado, um jogo de acertos para arrancar sorrisos, uma encomenda do estúdio sustentada na corda da simpatia do elenco. A culinária é só para deixar o filme numa moda atual. E Hicks, que já fez um filme bem lembrável sobre culpa e memória (“Neve sobre os Cedros”), maneja bem a encomenda. Se Audrey Hepburn passar acenando pela cabeça, não será por acaso.

A porta de entrada de “Sem Reservas” é Abigail Breslin, pequena miss sunshine, a melhor atriz aqui. É pela meiguice em cima do tom dela que talvez dê para rir dos exageros simpáticos de Aaron Eckhart e, enfim, dar crédito à neurose calculada de Catherine Zeta-Jones. Não é uma história de personagens, mas de atores na tela – se você não vai com a cara de um deles, ou não gosta disso, não funciona.

O açúcar vem em quantidade colossal, mas bem distribuída. É o tipo de filme que dá a lembrança de uma coberta na frente da televisão numa noite fria sem sono. Coisa que, em algum momento da vida, formou um pedaço do amor ao cinema em muita gente. Um filme-colo, que sorri e depois evapora na luz acesa. Nele, a todo momento alguma puxada de tapete se insinua, sem acontecer. E a gente percebe que a ética do fura-olho está em nosso mundo, não no dessa história. Nesse pequeno traço de civilização, o sonho já valeu.

“Sim, nós nos divertimos muito fazendo esse filme.”

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