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Cães sem dono

12.08.07

por Rodrigo Ortega

Superguidis - A Amarga Sinfonia do Superstar

(Senhor F, 2007)

Top 3: "Mais um dia de cão", "Mais do que isso", "Riffs".

Princípio Ativo:
íntimo & familiar [2]

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Esse cara que passeia chutando latas pela cidade suja das músicas do Superguidis poderia ser aquele magrelo com a barba mal-feita do filme do Beto Brant ou o maluco que se esconde no décimo-sétimo andar de um prédio com vista para o lago Guaíba do livro do Daniel Galera.

Porém, os Superguidis conseguiram salvar seu (anti-)herói do monstro do Guaíba e voaram para Brasília, onde receberam abrigo do selo Senhor F. A Amarga Sinfonia do Superstar foi registrada lá, com produção do plebeu rude Philippe Seabra (Beto Só, Réu e Condenado). O sotaque forte do Rio Grande do Sul, as gírias locais e internas dos Guidis e o clima levemente ensolarado do primeiro disco não foram na bagagem para a capital.

A falta de rock gaúcho no rock dos gaúchos do Superguidis não significa desapego à cidade. O protagonista não esconde suas origens. “Moro nesse mesmo bairo há mais de vinte anos / Já plantei o meu destino em mudas de eucalipto”, declara, sem alegria nem raiva, em “Mais um dia de cão”. Este sentimento amargo, mas sem auto-piedade, passeia por todo o disco e chega ao auge nessa faixa, daquelas que nos dão vontade de ouvir de novo e de novo.

Outra faixa viciante, “Mais do que isso”, poderia ser uma mensagem de superação, mas é menos que isso. O refrão é “Eu quero fazer tudo que você faz / mais do que isso eu sei que não sou capaz”. A gente pode se frustrar junto com o cara que repete várias vezes o verso “não sou capaz” e/ou se encantar com o quanto esse sujeito deve gostar da pessoa que é capaz do que ele quer. O jeito resignado com que as histórias são contadas não são sinal de puro conformismo, mas de um contato com a vida comum que ao mesmo tempo assusta e encanta.

O encontro dos versos “Não perca seu tempo com as preocupações banais” (de “Ainda sem nome”) com “Bicicletas aro 15, tênis com cheiro de chiclete / são o bastante para lembrar destes anos que passam sem parar” (de “Os erros que ainda irei cometer”) é o bastante para dar ao disco aquela sensação incrível de arrumar a gaveta de madrugada para separar o que vai direto para o lixo e o que vai ficar guardado na caixa das coisas mais importantes da sua vida para sempre.

Quando o clique em um arquivo de mp3 abre a sua caixa de coisas importantes, é porque existe ali aquilo que o Daniel (não o Galera, o Oliveira) falou: familiaridade. Se até a faixa escondida no final do CD, “Riffs”, que poderia ser estranha se quisesse, tem um riff simples e cativante e fala sobre a fé em riffs simples e cativantes, a gente pode ter certeza que esse garoto que passeia chutando latas pela cidade suja das músicas do Superguidis poderia ser eu ou você.

A desajeitada foto de divulgação do superstar

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