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Elogio à doçura

18.05.08

por Suellen Dias

Um beijo roubado

(My blueberry nights, Hong Kong/China/França, 2007)

Dir.: Wong Kar-wai
Elenco: Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz, David Strathairn, Cat Power

Princípio Ativo:
deslocamento

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Era uma vez um bar e suas histórias. Um vaso repleto de chaves, uma câmera de segurança e Jeremy (Law), o dono do lugar, eram as testemunhas oculares de portas que se abriam e fechavam, de casais desfeitos e do tempo que passava. Elizabeth (Jones) também vem ao bar só para apoiar seus cotovelos doloridos no balcão de Jeremy e deixar as chaves que encerram outra desilusão amorosa. Não é preciso muita perspicácia para adivinhar como tudo termina. Mas foi com muita maestria que o chinês Wong Kar-Wai transformou essa trama sem tantas surpresas num filme tão bonito. E tão doce.

“Um beijo roubado” é o primeiro trabalho do diretor gravado totalmente em inglês. E a película não deixou de captar o choque decorrente dessa transição do mandarim para uma língua estrangeira. Ainda que sutilmente, paira um desconforto nos diálogos, que acaba contribuindo para reforçar os pesos e silêncios nas falas do filme. Mas Kar-Wai colabora com o espectador, inserindo pequenos flashes que parecem dar ecos às reflexões dos personagens e um prazo para digeri-las. Algumas imagens são recorrentes e bastante emblemáticas: o metrô que passa é o avanço no tempo, que permite que as personagens também avancem em suas histórias; a colorida calda que escorre sobre o chantilly parece apelar aos olhos para lembrar a doçura oculta no acaso e nos novos encontros.

Quando Elizabeth decide deixar para trás seu antigo namorado e colocar os pés na estrada, o filme toma ares novos e consegue reproduzir bem a sensação de vento no rosto que um road movie deve ter. A partir daí, os ponteiros da trama se tornam os quilômetros de distância que separam a viajante de seu ponto de partida.

Durante a travessia, a ingênua Elizabeth deixa de protagonizar sua própria desilusão para se transformar em coadjuvante das histórias que presencia. É nessa hora que a elogiada estréia como atriz de Norah Jones é justificadamente apagada pela atuação de nomes como Natalie Portman, no papel de uma audaciosa jogadora de pôquer em conflito com o pai, e Rachel Weisz, que interpreta uma mulher perseguida por seu ex-marido alcoólatra que não aceita a separação.

Elizabeth só consegue realizar a mudança interior que buscava porque, por um momento, deixa de lado suas decepções e ansiedades, para se transformar em observadora da vida e paixões alheias. Com isso, ela aprende novas formas de olhar a si mesma e ao mundo. É a essência das grandes viagens, dos grandes amores e dos grandes filmes. Sair de si, ir ao outro e voltar melhor do que partimos.

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