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Do outro lado

25.07.08

por Daniel Oliveira

Era uma vez...

(Brasil, 2008)

Dir.: Breno Silveira
Elenco: Thiago Martins, Vitória Frate, Rocco Pitanga, Paulo César Grande, Cyria Coentro, Luana Schneider

Princípio Ativo:
possibilidades impossíveis

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Existe algo de possibilidades impossíveis em “Era uma vez...”. É a forma como o diretor Breno Silveira filma o romance entre o vendedor de cachorro-quente, Dé, e a princesinha da Vieira Souto, Nina.

Está na grua que retrata a distância infinitesimal entre Ipanema e a favela do Cantagalo, situadas do lado uma da outra. E na condução do primeiro terço do filme, narrando a difícil travessia que os dois protagonistas precisam realizar pelo lago de crocodilos e tubarões que separa esses dois vizinhos. O mesmo que nos separa de nossos porteiros, permite ignorar o ambulante da rua e é o verdadeiro cartão postal da Cidade Maravilhosa.

O conto-de-fadas impossível de Dé e Nina é a possibilidade de solução para essa cidade partida. E é por isso que torcemos por ele.

Existe algo de esperançoso no amor de Romeu e Julieta, que ainda nos faz acreditar e torcer por um final feliz, mesmo depois de tantas peças, filmes e adaptações. Em “Era uma vez...”, esse algo é a química entre Thiago Martins e Vitória Frate. É a paixão dele, expressa em frases tímidas e desajeitadas; e a ternura do silêncio dela, preenchido somente pelo sorriso. É um encontro que convence e, quando os dois dançam no baile funk, você não duvida de que, assim como não existe “buchecha sem claudinho”, é assim Dé sem Nina.

O idílio amoroso do casal domina o filme, até despertar, como diria o professor Heitor Capuzzo, a inveja dos deuses. No caso de “Era uma vez...”, ela é manifestada através de uma crise na favela que selará o destino dos amantes.

Para construir essa crise, Breno e o roteiro se desviam do romance em direção a mais um ‘filme de favela’ nacional. Os “porra” e “caralho” invadem os diálogos. Mesmo as cenas de violência, que funcionam no começo, parecem forçadas - com uma edição equivocada, como o momento em que Carlão (Rocco Pitanga), irmão de Dé, mata um inimigo para tomar o morro.

Existe algo de exclusivamente passional que guia as decisões de Romeu e Julieta. E é esse mesmo algo que dirige o ato final do longa de Silveira. Eu, que sou alguém 73% racional, sempre achei muito difícil entender qual a lógica de se apaixonar pela única pessoa que você não pode ter e desafiar a morte por isso. É inconseqüente e quase inverossímil, assim como a última seqüência de “Era uma vez...”.

No seu plano final, Breno Silveira repete a pergunta de “2 filhos de Francisco”: em um país/mundo/universo injusto, esses personagens têm o direito de sonhar? E acaba respondendo ao meu questionamento: não é Romeu e Julieta, nem Dé e Nina, que estão errados. É o sistema.

Mais pílulas:
- O segredo de Brokeback mountain
- Maré - nossa história de amor
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This little universe between our backs, so beautiful and colorful...

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