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Novela grega

23.10.08

por Daniel Oliveira

Última parada 174

(Brasil, 2008)

Dir.: Bruno Barreto
Elenco: Michel de Souza, Chris Vianna, Marcelo Mello Jr., Gabriela Luiz, Anna Cotrim, Vitor Carvalho, Hyago Silva, Tay Lopez

Princípio Ativo:
melodrama

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Qual o problema em transformar uma tragédia em um melodrama? Nenhum. As duas são abordagens ficcionais diferentes mas que, bem realizadas, resultam em obras igualmente boas.

SÓ QUE, e há um grande “só que” aqui, a tragédia narrada no documentário “Ônibus 174” é a melhor (pior?) história já contada pelo cinema nacional. E o melodrama ficcionalizado em “Última parada 174” é simples e honestamente um bom filme.

O documentário de José Padilha não apresentava somente a história de um filho sem pais – ele pintava o quadro terrível de 170 milhões de pessoas sem País. Na falha da mídia, da polícia e da sociedade civil organizada, “Ônibus 174” constatava algo tão desolador quanto cotidiano: nossa ‘democracia’ não funciona como deveria. “Ônibus” é o monstro de mil braços que “Tropa de elite” queria ser - e a cratera gigantesca e o mal estar absurdo em que éramos deixados ao seu final ainda não foram repetidos por nenhum outro filme nacional.

Já o roteiro de “Última Parada 174” transforma a história do seqüestrador-vítima Sandro em um (digno) melodrama novelesco de ‘quase dois irmãos’ vivendo metades de uma mesma (e nada mole) vida. Melhor roteirista do cinema brasileiro atual, Bráulio Mantovani ficcionaliza a relação do protagonista com Marisa, sua mãe adotiva, e introduz na história, como um contraponto moral para Sandro, o filho que ela perdeu ainda bebê no personagem de Alê Monstro.

O resultado é uma trama de encontros, desencontros, equívocos e desígnios, típicos do universo melodramático, em que a história não é fruto da ação dos personagens, mas sim da “Providência” que atua sobre eles e determina seus destinos. Ela substitui o mosaico social de Padilha, numa escolha polêmica costurada com uma competência à altura dos atuais mestres do gênero: Paul Haggis e Guillermo Arriaga. O seqüestro do ônibus, aliás, transforma-se em um clímax digno de um roteiro de Haggis.

O elenco desconhecido é competente, assim como a fotografia e a edição. Mas isso só ressalta que, enquanto “Ônibus” era uma obra ousada, original e anos-luz a frente de tudo que a precedia, “Última parada” é uma realização técnica tão bem feita quanto ordinária. O sabor de déjà vu dos porras, caralhos e das cenas de favela é enjoativo – e a falta de colhões do diretor Bruno Barreto, ao não mostrar o tiro no camburão ao final, não melhora o status cagão de seu filme.

Se fosse uma pintura original, “Última parada 174” poderia ter lugar de destaque na galeria da Retomada. Colocado ao lado da Mona Lisa de José Padilha (e é onde ele inevitavelmente será posto), tudo o que lhe restará é uma sombra da qual ele nunca escapará.

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Fantasmas de um passado recente.
Ainda dói.

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