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Faroeste Caboclo

por

30 de maio de 2013

Cinema, Receituário

Faroeste Caboclo

Brasil, 2013

  • Dir: René Sampaio
  • Elenco: Fabrício Boliveira, Ísis Valverde, Felipe Abib, Antonio Calloni, Marcos Paulo, César Troncoso

Avaliação: ★★★½☆ 

Eu nunca entendi direito como João foi tomar um cafezinho em Salvador e acabou indo pra Brasília no lugar de um boiadeiro que precisava encontrar a filha. E parece que os responsáveis pela adaptação de “Faroeste Caboclo” para o cinema também não. Não é que a passagem não seja explicada, ela simplesmente não existe no filme. E isso tem muita a ver com João de Santo Cristo perder o protagonismo absoluto que tinha na letra de Renato Russo e dividir a história com Maria Lúcia.

Umas das possibilidades mais interessantes de contar em outra mídia uma das músicas de maior sucesso da Legião Urbana é poder preencher as lacunas da saga do nordestino que vai virar bandido na cidade grande e acaba se apaixonando: como João conheceu Maria Lúcia? Quem era Jeremias? E o general de dez estrelas? Algumas destas questões são respondidas por “Faroeste Caboclo” (o filme), enquanto outras são ignoradas. Normal em se tratando de uma adaptação, mas algumas escolhas acabam levando a história para um lado diferente do que a letra faz. Na busca por um produto pop jovem de grande bilheteria, o longa amacia João de Santo Cristo, criando mais um herói do que anti herói. Então não espere uma criança que “ia pra igreja só pra roubar o dinheiro” e que “de tanto brincar de médico aos doze era professor”. Este João do cinema é boa pessoa desde sempre, quer sair da vida de bandido, e quando mata é por justiça.

E é aí que entra Maria Lúcia. A garota patricinha filha de senador transforma uma tragédia de exclusão social e racismo que vai explodir em violência em um Romeu e Julieta na cena rock de Brasília da virada dos anos 70 para os 80. A importância dada à personagem que só aparece depois da metade da música tira o foco da saga pessoal de João e transforma “Faroeste Caboclo” em um drama de amor impossível. Tudo bem se não fosse a indecisão entre assumir o romance ou discutir a rivalidade (social, racial, profissional) entre João e Jeremias.

O filme não consegue se aprofundar em nenhum dos dois, e ainda peca por ignorar a crítica ao espetáculo midiático (talvez pela produção fazer parte deste mesmo espetáculo?) tão presente na música: João era um garoto que queria encontrar “as coisas que ele via na televisão”, mas de maneira trágica acabou se tornando ele próprio uma história que “viram na TV”. O circo midiático do confronto final não existe (só uma referência ao jornal “Notícias Populares”), assim como o sacrifício que Maria Lúcia faz ao ficar com Jeremias a coloca como uma quase-santa que diminui o impacto do amor bandido e a redenção ao final da música (além de não fazer muito sentido dentro da lógica do roteiro).

Mas isso não quer dizer que “Faroeste Caboclo” seja um filme ruim. Dentro da proposta de amansar seus personagens e tornar a violência e desilusão palatáveis ao máximo, a produção se sai bem e entrega uma direção elegante, com planos que homenageiam o western de Sergio Leone (apesar deste estilo parecer deslocado nas cenas mais urbanas), ao mesmo tempo em que conta com um trio de atores inspirados. Fabrício Boliveira e Isis Valverde possuem química e talento necessários para que acreditemos em João e Maria, e Felipe Abib faz um Jeremias caricato na medida certa para ser odiado imediatamente pelo público.

Em se tratando de uma história baseada em um música tão conhecida, a narração em off é totalmente dispensável, soando redundante na tentativa de explicar o que todo mundo já sabe. E se peca por não dar conta de passar as mensagens tão poderosas presentes na letra de Renato Russo, “Faroeste Caboclo” é corajoso no tema das drogas, resolve bem alguns hiatos da narrativa e apresenta um panorama da Brasília da época mais complexo do que aquele visto em “Somos Tão Jovens”.  Mas seu maior problema acaba sendo, ironicamente, a canção que o inspirou: é provável que você se pegue cantarolando a saga de João para “descobrir” o que vem a seguir, algo que acaba comprometendo a imersão no filme. Eu iria sugerir que se entre no cinema ignorando completamente a música, esquecendo-a por duas horas. Mas isso será impossível.

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1 Comments For This Post

  1. Carlla Mendes Says:

    Acho que com tanta violência,tanta individualidade,até os produtores,roteiristas e diretores de cinema se veem obrigados a transformar um filme que tinha tudo para mostrar (como citado no post) a saga de um anti-herói
    em mais um romance clichê e com pitadas de impossibilidade,seja pela desigualdade financeira,racial,continental ou zodiacal… Enfim,do jeito que as coisas vão, há chances reais de vermos Rambo comprando flores e escrevendo poesias para sua amada brevemente. Aguardamos não tão ansiosos…

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