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Um Estranho no lago

por

12 de dezembro de 2013

Cinema, Receituário

L’inconnu du lac

França, 2013

  • Dir.: Alain Guiraudie
  • Elenco: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick D’Assumçao, Jerôme Chapatte

Avaliação: ★★★★☆ 


“Oh, the lonely people, where do they all come from? Oh, the lonely people, where do they all belong?”. Não deve ser o primeiro lugar onde gostariam de procurar, mas John Lennon e Paul McCartney poderiam encontrar a resposta para sua pergunta no principal (e único) cenário-título de “Um estranho no lago”: uma praia para encontros sexuais no interior da França.

Homens chegam. Tiram a roupa. Trocam olhares. Vão para a mata ciliar. Transam. É o que faz o protagonista Franck (Deladonchamps). Na sua primeira visita ao local, ele se sente atraído por Michel (Paou, saído de um filme pornô dos anos 70), que está acompanhado. No fim do dia, porém, Franck testemunha, escondido, o garanhão afogando seu parceiro a sangue frio.

E enquanto o protagonista retorna ao lago no dia seguinte – e no outro, e nos outros – para transar com o possível sociopata, o espectador nunca volta para casa com ele. “Um estranho no lago” se passa inteiramente naquela locação e o que, a princípio, pode parecer uma mera escolha formalista do cineasta Alain Guiraudie se torna a chave para compreender Franck.

O filme nunca vai para casa com o personagem, que menciona brevemente ser um feirante desempregado logo no início, porque ele não tem uma vida. Assim como os demais frequentadores do lago, Franck retorna ali todos os dias porque é extremamente sozinho. Não por acaso, ele insiste em pedir a Michel que os dois passem uma noite juntos. O protagonista tenta preencher ali um vazio que, por mais que ele tente se enganar, o sexo não é capaz de resolver.

Sim, é um pênis ali. Já viu um? Existem VÁRIOS como ele no filme.
Sim, é um pênis ali. Já viu um? Existem VÁRIOS como ele no filme.

A exemplo de qualquer – perdoe o meu francês (e o trocadilho) – ponto de pegação gay, o lago é uma ilha de solitários, e é essa solidão que Guiraudie quer retratar. Só que, em vez de realizar uma obra existencialista mais afeita à cinematografia do país de DeGaulle, o cineasta constrói um thriller recheado de sexo que – no seu formalismo, na sua disciplina, no humor inusitado e na tensão constante do espectador, que teme pela segurança de um protagonista cúmplice de assassinato – é o melhor longa de Hitchcock feito nos últimos tempos.

Sem trilha musical, todo feito em cortes secos e sem jamais sair do lago, o longa é ao mesmo tempo um trabalho naturalista e um exercício de elementos puramente cinematográficos. A locação, inicialmente um cenário bucólico e convidativo, vai se revelando mais sinistra e ameaçadora à medida que o arco dramático de Franck se emaranha numa rede de mentiras e suspeitas. E ao contrário de Kechiche, Guiraudie não trai seu naturalismo com cenas de sexo cinematográfico: as transas aqui são suadas e realistas, tão explícitas quanto desglamourizadas.

Porque, no final das contas, a única relação de verdade que o protagonista estabelece no filme é com Henri (D’Assumção), o amigo quase imaginário que ele faz ali. E não por acaso, o personagem acaba sendo uma projeção de como Franck realmente se sente por dentro. Como a desconfortável cena final deixa bem claro, dentro ou fora daquela mata, Franck continua sozinho.

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