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Fruitvale Station: a última parada

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30 de janeiro de 2014

Cinema, Receituário

Fruitvale station: A última parada

Fruitvale station, EUA, 2011

  • Dir.: Ryan Coogler
  • Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Ahna O’Reilly, Ariana Neal, Marjorie Crump-Shears

Avaliação: ★★★★☆ 


O grande trunfo de “Fruitvale Station: a última parada” é ser um filme sobre a vida, e não sobre a morte de Oscar Grant. Apesar de ele ter sido assassinado a sangue frio por um policial na noite de réveillon de 2009, na estação do título – imagem registrada pelos celulares de vários presentes e que abre o longa – o diretor estreante Ryan Coogler acerta ao fazer o espectador se acostumar com a luz primeiro para que, quando ela seja apagada, a escuridão fale por si só, sem precisar ser explorada melodramaticamente.

Não que a produção idealize ou pinte seu protagonista como um herói. Acompanhando um (último) dia na vida de Oscar, o filme retrata um ex-traficante de 22 anos com uma filha pequena, que traiu a namorada Sophina (Diaz), acabou de perder o emprego e se sente tentado a voltar ao crime. Mas que está tentando mudar de vida – a esperança vã e necessária representada por toda noite de ano novo.

Coogler mostra Grant como um ser humano incompleto com uma vida incompleta. Alguém que se recusa a ser vencido pelos erros do passado, pensando no futuro. Que não enxerga o presente como a última parada do título, mas como mais uma estação. Alguém em trânsito, que sonha – uma ideia que a fotografia de Rachel Morrison reforça abusando da profundidade de campo, com enquadramentos em que o ponto de fuga parece apontar para a luz que Oscar espera encontrar no fim do túnel.

O retrato de uma sociedade.
O retrato de uma sociedade.

Para construir a dicotomia desse homem bom que nem sempre faz coisas boas, o diretor conta com Michael B. Jordan. Assim como em “The Wire” e “Friday Night Lights”, o ator possui a luz de Grant – nas cenas com a filha Tatiana ou salvando um cachorro na rua – mas esconde também uma escuridão, ao ser provocado na prisão ou ao pedir seu emprego de volta, que a vida insiste em trazer á tona.

Jordan traz ao protagonista o sorriso de um menino que ainda não amadureceu completamente, mas está quase lá. É uma performance naturalista, que quase nunca é reconhecida pelo Oscar como os grandes arroubos de atuação, mas que é tão ou mais difícil. Ela é a linha que amarra as peças que o roteiro vai costurar no final, dando vida a elas, mesmo quando parecem forçadas à primeira vista.

São esses elementos que tornam o terceiro ato tão dolorido. Sim, a brutalidade policial é assustadora, e o letreiro no fim mostra como a sociedade ainda é tolerante com quem mata o preto, o pobre ou o viado – é mais confortável chamar de acidente… suicídio, que tal? Grant vale tanto ou menos que o cão que tenta salvar. Mas é o peso de tudo mostrado até ali, e que contesta essa afirmação, que faz o crime tão triste.

A ideia de que não é “só” um trem que foi parado em Fruitvale station. O futuro, os sonhos, a chance de se tornar um homem completo, a dignidade de Oscar foram tirados dele e morreram naquela estação. “A Última parada” dói porque mostra a vida que desapareceu ali, representada tão perfeitamente no fade out de partir o coração que encerra o longa.


“You take the pieces of the dreams that you have / Cause you don’t like the way they seem to be going / You cut them up and spread them out on the floor / You’re full of hope as you begin rearranging / Put it all back together …”

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