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Blue Jasmine

por

25 de novembro de 2013

Cinema, Receituário

EUA, 2013

  • Dir.: Woody Allen
  • Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Andrew Dice Clay, Louis C.K., Alden Ehrenreich

Avaliação: ★★★★☆ 

A sinopse de “Um Bonde chamado Desejo” (ou “Uma Rua chamada Pecado” no Brasil) no IMDb lê: “A perturbada Blanche Dubois se muda para a casa da irmã e é atormentada pelo cunhado bruto, enquanto sua realidade se desfaz ao seu redor”. Qualquer semelhança aqui não é mera coincidência. Apesar de ter sido comparado à história real de Ruth Madoff, “Blue Jasmine” é essencialmente uma atualização da clássica peça de Tennessee Williams, adaptada para o cinema por Elia Kazan com Vivien Leigh e Marlon Brando no elenco.

E teatro aqui é a palavra central. Jasmine (Blanchett) é a esposa do escroque Hal (Baldwin), obrigada a deixar sua cobertura em Nova Iorque e ir morar com a irmã Ginger (Hawkins) em São Francisco, após o marido ser preso por comandar um esquema de pirâmide financeira. Não por acaso, Jasmine é um pseudônimo da protagonista, cujo verdadeiro nome é Jeanette. Ela é vivida por Blanchett como uma atriz de uma personagem só que, depois do fim da temporada de seu espetáculo, não consegue retornar – ou lidar com – à realidade.

Isso porque Jasmine simplesmente não tem uma identidade fora dessa persona que criou para si mesma. E o excelente figurino de Suzy Benzinger deixa isso bem claro, vestindo a protagonista apenas em tons de bege nas cenas em São Francisco. Ela é um receptáculo vazio, esperando para ser preenchido novamente – tanto que construir uma identidade nova, estudando, se torna muito difícil e Jasmine logo encontra uma forma de retornar ao velho papel com o aspirante a político vivido por Peter Sarsgaard.

Mulher à bei... em pleno ataque de nervos.
Mulher à bei... em pleno ataque de nervos.

Mas até lá, a protagonista é um zumbi cuja única forma de interação com os vivos é se abastecendo de Xanax, lítio e martinis. A mistura permite que ela mantenha sua encenação, como uma mulher à beira em pleno e constante ataque de nervos, no limiar entre o mundo dos vivos e dos mortos, da realidade e ilusão. Blanchett, que havia terminado uma temporada no teatro como Blanche Dubois antes das filmagens, degusta cada cena e cada palavra, encontrando o humor do escárnio e do desprezo da negação de Jasmine no texto de Woody Allen, enquanto encarna a tragédia e o desespero do desfacelamento mental e físico da protagonista.

Por mais que o show seja dessa estrela queimando rumo à implosão, porém, seria injusto ignorar os planetas girando ao seu redor. Sem nenhuma vaidade, Hawkins é o contraponto perfeito para a elegância e as ilusões esnobes de Jasmine. E Bobby Cannavale reafirma seu talento mais uma vez como uma versão alleniana, frágil e emocional do Stanley de Williams.

Allen, por sua vez, reconhece as origens teatrais do material e, como é de seu feitio, filma em longos planos em que a câmera acompanha os atores e permite que eles deem vida à história. O resto da sua direção já está todo na qualidade do roteiro, que estaria entre os melhores do cineasta, não fosse pelo personagem de Sarsgaard e os furos que sua participação traz à história. Mas é o tipo de falha que só se vê porque é um traço destoante no meio de uma pintura que, de resto, é absolutamente hipnotizante e deliciosa de olhar.

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