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Full metal headbanger

13.10.09

por Daniel Oliveira

O mensageiro

(EUA, 2009)

Dir.: Oren Moverman
Elenco: Ben Foster, Woody Harrelson, Samantha Morton, Halley Feiffer, Eamonn Walker, Steve Buscemi

Princípio Ativo:
o silêncio amargo e austero

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Dois tipos de pessoas escutam metal / hardcore no talo: aquelas que não têm nada na cabeça; ou as que querem silenciar o que têm nela. O soldado Will Montgomery (Foster) de “O mensageiro” está no segundo grupo. Nas madrugadas sem dormir ou no calvário diário de seu trabalho, o rock podreira estoura seus miolos e o inferno que não sai de dentro deles.

Porque Will simplesmente não está ali. Ele ainda está no Iraque, de onde voltou recentemente. Seu tempo de serviço ainda não terminou e ele é designado para o grupo responsável por comunicar às famílias a morte de militares em ação na guerra.

Lidando diariamente com dor, ódio e desespero, ele acaba intrigado por Olivia (Morton), esposa de um dos falecidos. Assim como Will, ela guarda seu sofrimento numa caixa no fundo da alma e vive sua dor em silêncio. Olivia é a primeira pessoa que ele realmente vê – e que realmente o vê – desde que voltou do Iraque. E isso coloca Will em um dilema ético: ele quer tocar o “parente mais próximo”. Porque Olivia é a única coisa que ele pode sentir - e capaz de tocá-lo de volta.

Melhor roteiro no Festival de Berlim 2009, “O mensageiro” é uma coleção de personagens sombrios e bem delineados. Ben Foster se confirma como um jovem Paul Newman, numa performance dolorosa e sutil, e Samantha Morton demonstra a excelência habitual, desaparecendo em seu papel. A exceção é Woody Harrelson como Tony Stone, chefe de Will, que carrega na caricatura cômico-sulista de seu sargento e desperdiça a chance de levar a sério um dos personagens mais complexos de sua carreira em muito tempo.

A qualidade do texto não é surpresa. O roteirista Oren Moverman, aqui também estreando na direção, foi co-responsável pelo ótimo “Não estou lá” ao lado de Todd Haynes. Se na direção ele não entrega nada de novo - no máximo, alguns longos planos-sequência típicos do cinema independente norte-americano – seu roteiro traz uma metáfora bela e verdadeira. Will é um homem preso em um quarto de hotel, um não-lugar, recusando um mundo ao qual ele não pertence mais.

O protagonista está preso às suas memórias e, quando elas vêm à tona, somente o espectador mais insensível contém as lágrimas. É um momento amargo, de um filme amargo – talvez até demais. “O mensageiro” é mais um dos filmes sobre a Guerra do Iraque que peca na austeridade excessiva. É quase impossível achar uma luz no meio de toda a sua melancolia. Mas a forma como ele trata o trauma desses fantasmas que voltam do front – sabiamente admitindo que nós nunca vamos ser capazes de entendê-lo – é de uma maturidade notável para um diretor estreante.

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Ele tem colírio. E usa óculos escuros. Percebeu o drama?

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