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Ensaio sobre o olhar

05.04.10

por Daniel Oliveira

O segredo dos seus olhos

(El secreto de sus ojos, Argentina/Espanha, 2009)

Dir.: Juan José Campanella
Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella, José Luis Gioia, Mario Alarcón

Princípio Ativo:
paixão/obsessão

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Michael Haneke concorreu ao Oscar de filme estrangeiro em 2010 com um longa sobre elaborar perguntas. Juan José Campanella ganhou o prêmio com outro sobre encontrar respostas.

Se “A fita branca” e “O segredo dos seus olhos” são filmes absolutamente diferentes – quase incomparáveis – esse último é uma homenagem aberta e competente ao cinema hollywoodiano clássico e à narrativa inventada por Griffith. Nada mais natural, portanto, que os norte-americanos o prefiram ao europeísmo de Haneke.

O longa de Campanella faz uso de um gênero – o policial – para, sob o verniz de sua fórmula, contar outra história, de um amor jamais verbalizado. Benjamín (Darín) é o oficial de justiça aposentado que decide escrever um livro sobre um caso de estupro e assassinato que marcou sua vida. Ao reconstituir os fatos, ele nos apresenta sua relação com o colega Pablo Sandoval (Francella); com o viúvo da vítima, Ricardo Morales (Rago); e com a chefe, a secretária do juizado Irene Hastings (Villamil), por quem ele nutre um amor silencioso.

“O segredo dos seus olhos” começa como o episódio de uma série criminal, um “Law & Order” da vida, cheio de diálogos e minimalismos procedimentais (um interrogatório, em especial, parece saído direto de “The Closer”). Mas Benjamín logo soluciona o crime, reconhecendo em várias fotos o olhar de um homem apaixonado, e o filme se torna a jornada décadas adentro da obsessão do protagonista em encerrar o caso.

Essa obstinação do personagem é traduzida pelo diretor em uma série de longos planos-sequência – um deles, de cair o queixo, em um campo de futebol. Mas enquanto cenas e cenas, diálogos e diálogos, são gastos com o crime, Campanella constrói seu verdadeiro filme na identificação de Benjamín com a paixão obsessiva do assassino e, posteriormente, com “a vida cheia de nada” do viúvo. É nos olhares silenciosos de Soledad Villamil e Ricardo Darín (sem sombra de dúvidas, um dos melhores atores do cinema mundial) que o diretor e roteirista prova seu argumento sobre a “imortalidade de uma paixão”, com um amor melancólico e sutil que tem seu espelho no crime investigado.

Campanella é um grande roteirista e cria personagens ricos e bem escritos, mas se embriaga demais com sua técnica. “O segredo dos seus olhos” é um quebra-cabeça em que Benjamín deve aos poucos encontrar as peças e, no fim, os vários flashbacks e reviravoltas acabam cansando um pouco e diluindo o poder da trama. Não chegam a ser mal escritos nem forçados, mas como o próprio título diz, o filme está nos olhos, em seus segredos e silêncios. Na sua riqueza expressiva, em seus múltiplos sentidos. Típicos dos clássicos hollywoodianos que Hollywood não sabe mais fazer.

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O que o coração sente os olhos não escondem.

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