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Manipule-me por favor

03.06.10

por Daniel Oliveira

O escritor fantasma

(The ghost writer, França/Alemanha/UK, 2010)

Dir.: Roman Polanski
Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Kim Cattrall, Tom Wilkinson, Eli Wallach, James Belushi, Timothy Hutton

Princípio Ativo:
Polanski, o artista e o homem

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O mundo, para Roman Polanski, não é um lugar seguro. As pessoas não são confiáveis, especialmente as que parecem solícitas e simpáticas. Lutar contra ele é se afogar num mar de insanidade e isolamento. O mundo de Polanski é perigoso e, para alguém que perdeu a mãe nos campos de concentração nazistas e a esposa para o culto de um serial killer, não poderia ser diferente.

É delicado e questionável usar a vida do cineasta polonês para analisar sua obra. Quando começou a trabalhar em “O escritor fantasma”, o diretor obviamente não imaginava que o ex-primeiro-ministro inglês, escrutinado por uma mídia voraz e sedenta de sangue devido aos seus erros passados, espelharia sua própria situação durante a finalização do longa. Mas, mais uma vez, o paralelo é inevitável.

Na verdade, o protagonista é o personagem sem nome do título (McGregor), contratado para reescrever a autobiografia do ex-premier britânico Adam Lang (Brosnan) após a morte do assessor que realizava o trabalho. Isolado em Massachusetts com a entourage do político – em especial a esposa, Ruth (Williams, ótima), e a assistente Amelia (Cattrall, esforçando-se ao máximo para manter um sotaque inglês) – o escritor se vê literalmente no meio de um furacão, quando surgem denúncias de que Lang teria colaborado no seqüestro de cidadãos britânicos para serem torturados/interrogados nos EUA.

O universo do longa é escuro, o clima é sempre fechado, os espaços são sufocantes e ameaçadores. Um enquadramento do Escritor com um segurança em um quarto de hotel lembra a asfixia de “O inquilino” e “Repulsa ao sexo”. A ambientação envolve e aprisiona. E Polanski manipula o público - omitindo informações, plantando suspeitas - colocando-nos exatamente no lugar do protagonista, o que dá a impressão de que se algo acontecer com ele, acontecerá também conosco.

Essa identificação com um personagem inocente - e por vezes ingênuo - em busca da verdade ressalta o parentesco d’O escritor” com os longas de Hitchcock. Uma cena em que os galhos sujos do chão são juntados, só para serem espalhados de novo pelo vento – síntese do filme, por sinal – é de um humor típico do cineasta inglês. A excepcional trilha de Alexandre Desplat, que emula a parceria de Bernard Herrmann com o diretor de “Psicose”, só vem a confirmar isso.

Com “O escritor fantasma”, Polanski realiza o primeiro filme político sobre a guerra do Iraque que é Cinema antes de ser discurso panfletário. A sequência em que uma mulher fala ao telefone quando o Escritor chega em sua casa remete a uma cena de “O bebê de Rosemary” que fez o público torcer o pescoço no cinema naquela época. A reação hoje, após a mulher fechar a porta, é quase a mesma. Prova de que, numa história sobre manipuladores-fantasma escondidos atrás de marionetes políticos, o maior dos manipuladores ainda é o artista escondido na jaula do circo.

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A verdade está la fora. Mas está tão frio, escuro e sombrio...

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