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Para que servem castelos de areia?

06.08.10

por Daniel Oliveira

A Origem

(Inception, EUA/UK, 2010)

Dir.: Chris Nolan
Com: Leo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe, Tom Hardy, Cillian Murphy, Dileep Rao, Michael Caine

Princípio Ativo:
metalinguagem blockbuster

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Você gosta de filmes com muitos tiros, explosões, perseguições alucinantes e roubos elaborados? Mas sofre com o desprezo dos seus amigos que frequentam o circuito “de arte” e se acham melhores porque não vão ao multiplex? Você fica sem assunto, enquanto eles discutem as tramas complexas de filmes que não te interessam nem um pouco?

Seus problemas acabaram!

“A origem” é o filme de ação do homem moderno. Com design arrojado, mas acompanhado do melhor da narrativa clássica, ele vai satisfazer suas necessidades básicas e, de quebra, gerar muito assunto para discutir com os amigos cabeçudos!


“A origem” é isso: um blockbuster disfarçado de algo bem mais complexo. E algo bem mais complexo disfarçado de blockbuster. É como ler Trip ou Playboy: você tem todo o conteúdo imagético prometido pela “embalagem”, mas também pode se tornar alguém bem mais “sofisticado” se prestar atenção no resto do produto. Assim como as dimensões de sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos da trama, o longa tem vários (e satisfatórios) níveis de leitura, de acordo com o investimento do espectador.

O filme gira em torno de Dom Cobb (DiCaprio), especialista em roubar informações da mente das pessoas enquanto elas sonham. Exilado, ele aceita um último trabalho em troca da possibilidade de voltar para os EUA e rever os filhos. Só que desta vez, ele vai ter que plantar uma ideia na mente do filho de um magnata, com a ajuda de uma equipe bacanuda que conta com Juno e Tom Hansen, from Margate, New Jersey.

Dizer mais – ou mesmo explicar como isso funciona - é estragar seu filme. Grande parte do início de “A origem” é dedicada à definição das regras desse universo e prova da competência da direção de Chris Nolan é fazer com que isso não se torne abominavelmente chato. Fato que ele teve um orçamento respeitável, locações ao redor do mundo e efeitos especiais de ponta, mas as ideias são dele (a não ser que tenham sido inseridas). E mesmo o espetáculo visual não quer dizer que seja fácil: se você não prestar (muita) atenção nos diálogos, provavelmente vai se perder no fim do filme.

É nele que todo o universo construído se revela um cenário para mergulhar no subconsciente e no passado de Dom, assombrado pela mulher, Mal (Cotillard). Aqui “A origem” se mostra um longa essencialmente metalingüístico. já que o que Nolan faz com seu protagonista é exatamente o que os personagens fazem com os “sonhadores”. As funções dos membros da equipe de Cobb são correlatas às dos responsáveis por um filme (produtor, roteirista, desenhista de produção, atores). E quando eles conversam sobre a eficiência de mexer com as relações entre “pai e filho”, Nolan parece mostrar ao público como é “fácil” manipular emoções na sala escura.

Que, para fazer isso, Nolan trabalhe simultaneamente com quatro montagens paralelas em quatro cenários diferentes é só para dar a Griffith um orgasmo póstumo. Aliás, difícil o editor Lee Smith não levar o Oscar no ano que vem. Não que “A origem” seja perfeito: alguns diálogos soam batidos e alguns personagens são bem esquemáticos. Mas nada que me dê medo de dizer: “ah, se todos os blockbusters fossem como ele...”.

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