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Órfão da tempestade

17.01.06

por Daniel Oliveira

Oliver Twist

(Reino Unido/França/Rep. Checa/Itália, 2005)

Dir.: Roman Polanski
Elenco: Barney Clark, Ben Kingsley, Leanne Rowe, Mark Strong, Jamie Foreman, Harry Eden, Edward Hardwicke

Princípio Ativo:
Uma Londres de fábula

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A seqüência mais representativa deste “Oliver Twist” de Roman Polanski (O Pianista), apesar de não ser nem de longe a melhor, é aquela que encerra o filme. A carga melodramática do encontro final entre o órfão protagonista e seu carrasco-mor sintetiza o longa: pieguice açucarada, atores no ponto certo, um visual de dar água na boca e uma direção comparável à competência do melhor chef francês. Mas sua principal característica é que ela é desnecessária – ressoando a questão da necessidade de mais uma adaptação da obra, exaustivamente encenada em teatro, TV e cinema.

A trama, baseada na obra de Charles Dickens, é de uma pieguice datada, que melhora nas mãos do cineasta franco-polonês. No século XIX, Oliver Twist (Barney Clark) é um órfão que sofre nas mãos de padres glutões e famílias exploradoras, até que foge para Londres. Lá, ele encontra seu maior carrasco, Fagin (Ben Kingsley, irreconhecível), que tenta transformá-lo num batedor de carteiras. Oliver conhece o bondoso Sr. Brownlow (Edward Hardwicke), que deseja adotá-lo, mas é recapturado por Fagin e seu comparsa Bill, que querem usá-lo para roubar a casa de Brownlow.

Polanski constrói uma Londres fabulesca de encher os olhos. A maldade maniqueísta e onipresente da trama se transforma em uma “tonalidade” que paira sobre o filme. Não só as personagens são más, como a Londres do filme é mais acinzentada e fria que o normal. A fotografia envolve a cidade em uma névoa macabra, enquanto a direção de arte deixa prédios e ruas sujos e decrépitos, oprimindo ainda mais o sofrido Oliver. A cena da tentativa do roubo em meio à chuva é aterrorizante e remete ao visual de Tim Burton (Noiva cadáver). Ao invés de iluminar a escuridão em que se encontra o órfão, eles a tornam ainda mais assustadora, lembrando os galhos retorcidos das árvores secas do outono inglês.

Apesar da atuação impressionante de Kingsley e do rosto de Barney Clark, que parece ter a tristeza impressa em seus traços, o filme se torna um exercício de estilo do diretor. O visual envelhecido e artificial, assim como a narrativa absolutamente clássica, remetem ao pioneiro David W. Griffith – americano que criou o que hoje se conhece como narrativa cinematográfica clássica, (montagem paralela, suspense, romances, etc). Não por acaso, ele a criou com base na obra de Dickens.

Exemplo claro é a seqüência em que uma das garotas de Fagin, Nancy, tenta ajudar Oliver. Ela é seguida e quando o carrasco e Bill descobrem o que ela fez, o espectador já sabe o que a espera. Mas Polanski adia a punição da moça, enquanto o espectador sofre pelo destino da mocinha. É Griffith na veia. O problema é que essa fórmula já é usada há uns 100 anos. E o bom visual e a direção competente de Polanski não mascaram a água-com-açúcar da trama. Podem sobrar lágrimas, mas falta sal.

“Oi, eu sou Oliver Twist, codinome tristeza”

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