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O plástico e algumas bolhas

03.02.06

por Rodrigo Campanella

Memórias de uma Gueixa

(Memoirs of a Geisha, EUA/2005)

Dir.: Rob Marshall
Elenco: Ziyi Zhang, Li Gong, Michelle Yeoh, Kaori Momoi, Ken Watanabe

Princípio Ativo:
atrizes in fabula

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- Gostou?
- Gostei...
- Que cara é essa então?
- Cansaço.
- Foram só duas horas e 25 de filme.
- Parece mais. A história fica arrastada, não suporto isso de explicar cada detalhe pra quem assiste.
- ... e aquela narração é dispensável.
- É, isso que eu estou falando. Fora que a montagem onde você vê a menina aprendendo a ser gueixa me lembrou de “Team América”. Sabe, quando eles cantam aquela música mostrando que todo diretor faz uma montagem tapa-buraco pra mostrar como um derrotado é treinado para virar um campeão. “Even Rocky had a montage...”
- Claro. Inesquecível.
- Olha Brokeback Mountain ou Closer – tudo fica implícito ali mas não podia ser mais claro.
- Então você não gostou.
- Gostei. Mas as atrizes davam conta do recado sem apelar pra isso. Elas levam o filme nas costas parece que sem fazer força.
- Elas são chinesas, sabia?
- E daí?
- Daí que todo o filme é passado no Japão. Deu o maior bafafá na época do lançamento.
- Não vi diferença.
- Talvez. Mas aluga um filme japonês e compara as mulheres. Existe uma coisa de delicadeza que falta no filme.
- Mas não é um filme realista!
- Foi esse o argumento do diretor.
- Então. É praticamente uma fábula – e lembra demais Cinderela: a menina é vendida para ser gueixa (princesa) e acaba virando escrava e esfregando o chão. Nisso, se apaixona por um homem poderoso, ‘o Presidente’ (príncipe). Então, surge uma madrinha boa que vai ensiná-la como se tornar a maior gueixa do seu tempo (no caso, assumir seu lugar de princesa) e alcançar o homem que ela amava.
- Verdade. Mas tem o modo como ele conta a história. As imagens derramam de tão bonitas. E delicadas.
- Como a dança dela na estréia como gueixa.
- Ou a cena da menina subindo a escada para entregar o roupão rabiscado.
- Chicago era simpático, mas ele aprendeu muito sobre como filmar desde lá.
- Principalmente como ir devagar.
- Isso. Tem que ter paciência pra contar uma história desse tipo. Eu digo sempre, o cinema, a própria história do cinema, é essencialmente masculina. Quando a narradora é uma mulher, normalmente chega o diretor e tenta emular uma sensibilidade feminina que ele não tem ou nunca procurou saber como funciona.
- E o Rob Marshall?
- Ele parece realmente interessado nessa coisa ‘mulher’. Chicago e mais esse. Em alguns momentos ele até chega perto. Mas o que ele mais queria parece que conseguiu: é um filme para comer com os olhos. Parece que você está dentro de uma fábula. E você?
- A reclamação de sempre: as melhores imagens não duram na tela. Isso quebra o clima. Dizem que a lei agora em Hollywood é cortar o plano a cada 6 segundos ou o espectador desvia a atenção.
- Mas eles acreditam nisso?
- Muito mais do que deveriam.

“É, eu também assisti Casablanca de novo semana passada...”

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