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Sou grávida, mas tô na moda

17.05.06

por Daniel Oliveira

Meninas

(Brasil, 2005)

Dir.: Sandra Werneck

Princípio Ativo:
distâncias conceituais

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Conheça algumas meninas:

Evelin
É a personagem mais jovem do documentário. Ela tem 13 anos e está grávida do namorado traficante. Evelin escuta os tiroteios entre polícia e bandidos e enquanto Rose, sua mãe, tem medo, ela acha um “barulho doido” e se diverte. A mãe, aliás, é um retrato patético dos sonhos que essas garotas nem chegaram a ter – Rose queria ser “atriz de comédia” e se acha parecida com Cláudia Raia.

O sonho de Luana, 15 anos, outra grávida, era ser mãe, depois de cuidar da quarta irmã, desde os 10. Bons tempos em que crianças sonhavam em ser modelo-atrizes e jogadores de futebol.

Sandra Werneck
É a diretora. Depois de se aventurar pela ficção (“Amores possíveis”, “Cazuza – o tempo não pára”), ela volta ao gênero em que começou sua carreira como curta-metragista.

Sandra intercala bem as histórias, com recorte claro do que deseja. Não há depoimentos de especialistas, só o cotidiano das garotas, suas falas e as de suas mães. A cineasta só falha ao tentar fazer de sua câmera um observador passivo, que não julga a falta de maturidade filmada – por exemplo, ao mostrar Evelin bebendo cerveja em uma festa. A proximidade que a câmera busca nas casas que visita é incompatível com a distância e o julgamento que a diretora tenta (dis)simular.

Manuela
É o nome da atual protagonista de Malhação. Enquanto ela sonha com um amor, que só vai conseguir no final do ano, e se esforça como o modelo da garota perfeita, as mocinhas de Werneck vão ao baile funk e largam a escola para cuidar da casa. O espectador se sente tentado a julgar Luana, que ainda pula amarelinha, mas quer ter um filho. Mas são mundos diversos os de Manuela e Luana, quase dois países diferentes.

Para as “meninas” do filme, a gravidez pode ser um passaporte para sair de uma fase que não é para elas o que é para as garotas da Malhação. E essa distância de parâmetros é algo que Sandra não se atreve a discutir.

Tati
É o nome-símbolo do movimento analisado no recente “Sou feia, mas tô na moda”, do qual “Meninas” poderia ser considerado uma seqüência. As garotas que freqüentam o baile do primeiro, fatalmente acabam personagens do segundo. E enquanto nosso colaborador falava do funk na classe média, não há como não elaborar um pouco mais.

Enquanto aqui embaixo, aquelas letras parecem uma boa piada, elas são realidade lá em cima - países diferentes mais uma vez. É essa distância que permite que se assista a “Meninas” e vá dançar funk na boate mais próxima depois. A distância entre espectador e tela. Entre câmera e ação. Entre realidade e documentário, que ainda não se conseguiu transpor.

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