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Concepcionismo, vide bula

02.06.06

por Rodrigo Campanella

A Concepção

(Brasil, 2006)

Dir.: José Eduardo Belmonte
Elenco: Matheus Nachtergaele, Milhem Cortaz, Rosanne Holland, Juliano Cazarré

Princípio Ativo:
ao mesmo tempo, agora

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Dois meninos e uma menina em Brasília. Não dá pra chamar de adultos ainda, e jovens parece formal demais. Um dia chega um outro, mais velho. X, pode chamar de X apenas. Ele faz uma proposta, ‘ter uma identidade nova a cada dia, renascer’. Fácil assim. Carteira de identidade zero bala, cartão de crédito sem limite. Tudo falsificado. Essa confusão é chamada de ‘movimento concepcionista’. E vem uma outra menina que vai ser como um contraponto a isso, lembrando “Os Idiotas” de Lars Von Trier.

Mas como o movimento que lhe dá nome (e qualquer filme interessante), ‘A Concepção’ pode parecer mudar de princípio ativo a cada dia.

O bacana

Com a sinopse acima, era fácil fazer um filme babaca. Usar a desculpa do movimento para explicar uma porra-louquice de imagens que seria bem aceita em certos círculos ‘de arte’. Não é o caso. Belmonte, o diretor, faz um filme doidamente coeso, em que as imagens não parecem ter sido embaralhadas depois só para emular impacto (como pode parecer em um ’21 Gramas’). As seqüências podem lembrar cartas aleatórias tiradas de um baralho, mas isso encaixa preciso na idéia concepcionista de não-memória: apagar lembranças, começar de novo.

O empilhamento

Talvez a grande arte do filme esteja na capacidade de fazer encaixes, como surgiu numa conversa pós-sessão. A trilha sonora engata com perfeição nas imagens. A montagem encaixa com precisão na loucura das memórias. O sexo sem pudor não é gratuito. O roteiro tem o formato certo de um niilismo tão de hoje em dia e que nos anos 80 já dava seus passos largos. Algumas vezes, Rosanne Holland (Liz) e Cazarré (Alex) não encaixam tão bem no todo e parecem perder o fio. Nada que comprometa.

O grito

A hiper-montagem vence dos atores como personagem principal do filme. Quase não há cenas em que cada ator tenha tempo de se estabelecer antes de uma porção de cortes, o que exige que ele saiba se impor, rápido: poucos segundos na tela, três falas e mais nada. Ainda assim a presença deles, especialmente Nachtergaele e Cortaz, permanece com o espectador dias depois dos créditos finais.

A estrada, sem fim

‘A Concepção’ pode ser definido como um ‘road movie interior’, bem ao lado de ‘Encontros e Desencontros’ de Sofia Coppola. Sem sair de Brasília, eles vão do barato maravilha das novas drogas à bad trip total meses à frente. No meio do caminho, batem muita estrada (na cabeça) sem sair do lugar. O Concepcionismo se mostra uma identidade tão rígida quanto as outras. E talvez eles não quisessem tanto uma resposta, mas só encontrar uma busca.

Hoje os executivos bacanas, amanhã os donos do boteco...

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