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Como nossos pais

30.05.06

por Daniel Oliveira

A lula e a baleia

(The squid and the whale, EUA, 2005)

Dir.: Noah Baumbach
Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline, Anna Paquin, William Baldwin, Halley Feiffer

Princípio Ativo:
Pais e filhos

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Por bastante tempo, achei que meus pais deviam se separar. Os humores diferentes, as brigas constantes – e, em especial, o uso dos filhos para justificar o “sacrifício” – sempre me incomodaram. Se é difícil escrever isso em uma tela de computador, imagine botar em um filme para o mundo inteiro ver?

Foi o desafio do diretor Noah Baumbach. “A lula e a baleia” exorciza o divórcio de seus pais nos anos 80, através da separação de Joan (Laura Linney) e Bernard (Jeff Daniels), e de seus filhos, Walt e Frank, usados como munição. Ao invés do cinismo do amigo e produtor do filme, Wes Anderson (Os Excêntricos Tenenbaums), o diretor se apóia na emoção confessional da história.

Logo na cena inicial, Bernard pede que Walt explore o ponto fraco da mãe, durante uma partida de tênis contra Joan e Frank. Na segunda tentativa, ela percebe e encerra o jogo. Está sintetizada a guerra familiar. Enquanto Frank, o mais novo, aproxima-se da mãe, em ascendência na carreira de escritora, Walt idealiza Bernard, que conheceu o auge como romancista, mas não consegue mais publicar suas histórias.

Além da trilha musical precisa - mais tensa quanto mais a situação se complica - e dos figurinos e cenários, cheios de referências aos anos 80 e às características dos personagens, o longa arrebata no elenco e sua direção. Daniels é o próprio passivo-agressivo, nas insinuações contra Joan e no ciúme, mais que dos amantes, do sucesso profissional da esposa.

Mas o filme pertence a Jesse Eisenberg e ao espetacular Owen Kline (filho do Kevin), que interpretam Walt e Frank, respectivamente. Os dois irmãos não sabem se reproduzem a guerra dos pais entre si; refugiam-se em um mundo de mentiras; ou enchem a cara de bebida. Baumbach prova que aquela canção da Elis Regina - “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, lembra? – apesar de batida, está certa.

Frank se incomoda por ter a “estrutura óssea” do pai e xinga ao perder o jogo, exatamente como Bernard. Walt culpa a mãe pela separação - repetindo as opiniões do pai, da mesma forma que faz com livros e autores. Mas não consegue reproduzir o intelectualismo frio do progenitor, encarando o calor humano de Joan dentro de si mesmo em uma das cenas mais tocantes do longa.

Em “A lula e a baleia”, os filhos herdam as dores, conflitos e preconceitos – a história dos filisteus é ótima – dos pais. Não é possível escolher um lado, exaltar suas qualidades e esconder seus defeitos. Cedo ou tarde, enxerga-se que eles não são heróis, mas pessoas comuns. Para Baumbach, simplesmente se dar conta disso e tentar dar um passo a frente já é um ótimo começo.

“E essa é uma que eu acabei de escrever, chamada 'Wish you were here'”

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