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Londres, cidade fechada

07.12.06

por Daniel Oliveira

Filhos da esperança

(Children of men, EUA/Reino Unido, 2006)

Dir.: Alfonso Cuarón
Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Clare-Hope Ashitey, Pam Ferris

Princípio Ativo:
planos-seqüências pós-apocalípticos

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“Fonte da vida” afirmou com veemência que da morte, sim, pode surgir a vida; da morte, tudo bem, mas não do ódio e da guerra, dois elementos que permeiam a Inglaterra de “Filhos da Esperança” que, em 2027, aliou imperialismo e xenofobia para sobreviver à crise gerada pelo não-nascimento de bebês em 19 anos – é uma Inglaterra ainda mais cinza e azulada que o normal, de locações sujas e abandonadas, aliadas à quase total ausência de luz e sol da fotografia de Emmanuel Lubezki (Prisioneiro de Azkaban, E sua mãe também), como metáfora para a falta de nascimentos e crianças – um futuro desolado em que vive o descrente Theo (Clive Owen), co-optado pela ex-mulher Julian (Julianne Moore) e seu grupo rebelde Peixes - que tenta proteger os refugiados das atrocidades cometidas pelo governo inglês - para levar Kee (Clare-Hope Ashitey) a um barco do mítico “Projeto Humano”, mas se no início a proposta envolve dinheiro, Theo descobre que a garota está grávida, o que desperta nele uma esperança que ele acreditava ter morrido – e é crendo que isso pode acontecer com mais gente que ele decide proteger a garota – iniciando um road movie, especialidade do diretor Alfonso Cuarón (Prisioneiro de Azkaban, E sua mãe também), que faz de “Filhos da esperança” uma aula de realização e técnica cinematográfica, já que o roteiro tem suas falhas e é cheio de personagens-muleta, e tem no mexicano seu alicerce, desde a direção dos atores - Owen opera a transformação de Theo em camadas, e basta um simples sorriso para mostrar que algo mudou nele – até os detalhes e as referências pop: ele é capaz do virtuosismo de enquadrar Kee dentro do buraco de uma janela, que parece um útero; “Guernica”, alegoria à guerra de Picasso, aparece na parede de um “patrono das artes pós-apocalíptico”; e “Arbeit macht frie”, música do Libertines com título nazista, está na (apocalíptica) trilha, justamente quando uma personagem é deixada em uma espécie de campo de concentração; ao mesmo tempo, porém, Cuarón imprime uma fluidez ao filme, com a movimentação da câmera nervosa, mas consciente, especialmente na deflagração do conflito ao final do longa, ou na cena-síntese do parto – Theo e Kee em um quarto escuro e a criança surgindo na única luz presente no quadro – e, sinto muito, escrever o texto assim foi a única forma que encontrei para tentar passar o desespero causado pelos longos planos-seqüências orquestrados por Cuarón e Lubezki, que fazem de “Filhos da esperança” uma obra neo-realista do século XXI, para pessoas “que insistem em ignorar que o futuro está a sua frente”.

O apocalipse, o elenco, Cuarón e o plano-seqüência: 15 minutos sem tirar...

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