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15.04.05

por Rodrigo Campanella

A Queda - As últimas horas de Hitler

(Alemanha/Itália, 2004)

Direção: Oliver Hirschbiegel
Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Corinna Harfouch, Ulrich Matthes

Princípio Ativo:
O horror, ele mesmo

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Talvez seja o medo de não atrair público, ou um público amaciado demais, que faz com que A Queda! mereça exclamação e subtítulo explicativo. E a ênfase nesse “de Hitler” realmente parece estar levando bastante gente ao cinema, visto o fato do filme, na segunda semana e em uma sessão às três da tarde, ter quase lotado uma sala de cinema cult da cidade. Normalmente, ali haveria apenas uns dez gatos-pingados.

Mas, a despeito do subtítulo, o que está na tela teria definição melhor como “os últimos dias”, do ditador alemão, do terceiro reich e, de certa forma, de uma possibilidade de se olhar o mundo. Impressiona bastante o modo como o diretor Oliver Hirschbiegel consegue mostrar os destroços da Berlim nazista sem cair no fetiche dos heróis de guerra ou dos BUMs explosivos. Arremedo de herói aqui é no máximo um pai que afasta o filho do comando de uma bazuca, e por aí se tem noção do conceito ‘guerra’ da película.

O filme põe o foco principal no bunker onde Hitler e alguns altos comandantes resistem (ou assistem) à queda de Berlim, com condições mínimas e delirantes do que ainda pode ser feito. Baseado nos relatos da secretária de Hitler, Traudl Junge, a queda do título está explícita desde o princípio, nos gestos incontrolados de um Hitler tomado pelo Parkinson ou no gosto crescente dos altos oficiais pela companhia de destilados e fermentados.

E, logo na primeira cena, estrategicamente o momento onde Hitler escolhe Junge para ser sua secretária, surge o primeiro mal-estar no estômago. Aqui, a regra do jogo não é odiar o personagem Adolf Hitler já de antemão, como centenas de outros filmes trataram de ensinar, muito bem. O que Bruno Ganz (ótimo, por sinal) e Hirschbiegel põem na tela é a figura tímida e atarracada de um homem que vocifera nos mesmos termos de uma criança mimada. Essa opção só deixa ainda mais explícita a cadeia amplificadora de crueldade que sustentava Hitler e se espalhava cegamente até os postos mais baixos do exército nazista. Com isso, cai o artifício de uma filmografia completa que derrubava de modo simplista todo o peso do ‘mal’ na figura de Hitler, apenas.

A luz e o movimento dentro do bunker nazista parecem sugerir que estamos, efetivamente, no meio de um filme de fantasmas; algo que o lado de fora dali, ou seja, o resto do mundo, acabaria se tornando em parte, incapaz de lidar com aquela memória maldita. Dentro do bunker, vacilando entre o silêncio e alguns gritos esporádicos, está o retrato de um mundo sem memória que sobreviveu ao pós-guerra. Por isso é tão importante assistir ao terror, encará-lo, nem que seja para ficar mudo depois. Talvez um dia seja possível falar novamente.

Hitler (Ganz) cumprimenta um dos novos soldados

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