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Decifra-me ou...

31.05.07

por Daniel Oliveira

Zodíaco

(Zodiac, EUA, 2007)

Dir.: David Fincher
Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Anthony Edwards, Chlöe Sevigny, Philip Baker Hall

Princípio Ativo:
a esfinge da modernidade

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Os anos 70 viram – nos efeitos do pós-1968, do movimento hippie e do Vietnã – a morte de certos valores. Valores da sociedade do American way of life criada no Baby boom do subúrbio e idiotizada nos drive-in’s - e representada nas vítimas assassinadas pelo Zodíaco no começo do filme homônimo.

O serial killer nunca desmascarado de São Francisco é um mito nos EUA que dura até hoje. Zodíaco, como retratado no longa de David Fincher, é o rito de passagem que marca as transformações, não só da sociedade norte-americana, mas do mundo como o conhecemos hoje. Esse em que nada mais está isolado – o assassinato em Vallejo está ligado ao de Napa Valley e ao de SF. Tudo está conectado, o mundo é a tal aldeia blábláblá. É essa novidade em “rede” que os policiais do filme não conhecem e enfrentam em um hilário retrato da burocracia institucional via telefone.

Em rede, as informações circulam. A discussão e os fatos se desenrolam nas ruas, no espaço urbano, e não mais dentro de casa (na família). Fincher captura isso na câmera que enquadra o movimento da cidade; e na montagem em que a mitologia do Zodíaco é construída aos pedaços, pelos diálogos dos mais diversos agentes - potencializados pela televisão e jornais, novos fóruns da opinião pública.

Os anos 70 também viram a queda da crença na ciência, na psicanálise e no conhecimento técnico como fontes da verdade. O policial Dave Toschi (Ruffalo) se depara com isso quando a balística e o exame caligráfico não incriminam o suspeito que ele tinha certeza ser culpado – enquanto é esmagado por Fincher na parte mais baixa de uma escada.

São esses abalos que retiram as referências de segurança daqueles personagens. E impulsionarão a obsessão do cartunista Robert Graysmith (Gyllenhaal, ótimo) pela identidade do Zodíaco. Encontrar essa resposta é talvez dar sentido a um mundo que deixou de tê-lo. Não por acaso, o serial killer se torna essa esfinge cuja busca pela identidade culmina na perda da identidade de quem se aventura nela: o jornalista Paul Avery (Downey Jr., um Stradivarius), Toschi, Graysmith.

Esfinge, anagrama, mensagem cifrada, mistério. Avery diz que o Zodíaco é espetáculo, “é mentira, só quer a fama”. Não simplesmente defini-lo como o serial killer da sociedade do espetáculo, essa afirmação o aponta como o próprio espetáculo. Em uma realidade que não faz sentido, Zodíaco é a esperança, a fuga: ele é metáfora da maior mentira de todas, o cinema. Não é à toa que Toschi explique a Graysmith no final que a solução encontrada por eles deve ir para um livro. Ou filme. A realidade...a realidade talvez não faça sentido.

No escuro: Gyllenhaal tenta levar Downey Jr. para o outro lado.

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