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“Ninguém disse que era fácil. Ninguém nunca disse que era tão difícil”

11.09.04

por Daniel Oliveira

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

(Eternal Sunshine of a Spotless Mind, EUA 2004)

Direção: Michel Gondry
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood, Tom Wilkinson

Princípio Ativo:
Comédia romântica, quadrinhos e insanidade.

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Em Adaptação, Charlie Kaufman nos apresentou e subverteu os elementos básicos de um roteiro hollywoodiano: uma narrativa em off, uma perseguição de carros, uma revelação surpreendente no final, uma lição de vida. Bem, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, lindo nome do mais novo trabalho do roteirista, tem todas essas “ferramentas-padrão”, além de se encaixar num dos gêneros mais batidos do cinema atual: a comédia romântica. O que faz dele então um doce temperado, uma música do Coldplay com um riff do White Stripes, um romance de Meg Ryan com reminiscências de história em quadrinho?

Pra começar, a mente mirabolante de Charlie Kaufman ainda consegue confundir incomparavelmente as linhas entre ficção, realidade do espectador e ficção dentro da própria ficção. Explico: Jim Carrey (sem tantas caretas e abraçando mais seu personagem do que a própria caricatura) é Joel Barish, um sujeito tímido que se apaixona por Clementine (Kate Winslet, original como sempre) e vive um romance que parece perfeito. Até que os problemas aparecem, e Clementine se decide por um programa de apagamento seletivo de memória para esquecer que chegou até mesmo a conhecer Joel. Desesperado, ele se arrisca pelo mesmo processo, porém desiste no meio do apagamento e vai contar com a ajuda de suas lembranças de Clementine para não esquecer seu amor. Açucarado como uma comédia romântica. Insano como os roteiros de Kaufman.

Grande parte do filme se dá nas memórias de Barish e nas intervenções que ele tenta fazer nelas, assim como nas suas tentativas de sair delas e parar o apagamento. Qualquer subversão com o esquema espectador-tela-cinema não é mera coincidência. O personagem de Carrey tenta alterar os maus momentos que teve com Clementine, e da mesma maneira ressaltar os melhores; mas como um terceiro dentro de sua própria história (ou de sua própria mente), ele descobre que não pode fazer nada a não ser assistir, ou inutilmente tentar fugir do processo.

Contando com o clipeiro Michel Gondry (diretor dos ótimos clipes Sugar Water, do Cibbo Matto, e Fell in love with a girl, do White Stripes, dentre outros) na direção, o filme ganha um visual colorido e uma edição cheia de trucagens que dão um toque especial às passagens entre memórias e entre memórias e realidade. Além de Gondry, o filme tem um elenco de coadjuvantes de primeira – Elijah Wood, Kirsten Dunst, Tom Wilkinson e Mark Ruffalo - o que mostra o prestígio que o nome Charlie Kaufman confere a um projeto hoje.

No final das contas, quem não tiver paciência para sacar as brincadeiras metalingüísticas de Kaufman ou os maneirismos videoclípticos de Gondry, pode assistir só pela história de amor extremamente simples e verdadeira. Qualquer um que já tenha passado por uma crise num relacionamento, ou se arrependido de uma decisão precipitada vai se identificar com a trama. A química entre Carrey e Winslet funciona, tanto que, quando um terceiro elemento tenta criar um patético triângulo amoroso, você começa a torcer ridiculamente pelo final feliz – assim como num filme da Meg Ryan. Se o final deixa um pouco a desejar, em se tratando de Kaufman, o que vale é a experiência do filme inteiro, o que tem se tornado cada vez mais raro hoje em dia. É sacado? É. É romântico? É. É insano e metalingüístico? É. Qual o problema de se gostar de Coldplay e White Stripes ao mesmo tempo?

Winslet e Carrey: química que funciona

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