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Cansei de ser francês

26.07.07

por Daniel Oliveira

Um lugar na platéia

(Fauteuils d’orchestre, França, 2006)

Dir.: Danièle Thompson
Elenco: Cécile De France, Valérie Lemercier, Albert Dupontel, Claude Brasseur, Christopher Thompson, Dani, Sydney Pollack

Princípio Ativo:
a arte e a vida

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“Eu sempre quis ser artista, mas como não tinha talento, resolvi trabalhar no meio deles”. A frase do início de “Um lugar na platéia” ressoa logo no ouvido dos cinéfilos que “queriam viver um filme e, constatada a impossibilidade, decidem trabalhar com cinema” – a impossibilidade do sonho materializada na vida. O mesmo serve para os apaixonados por pintura, música, teatro... Através de seus personagens, o longa fala dos vários papeis que a arte pode assumir para as pessoas.

Há a atriz (Lemercier) que deixou a arte tomar o lugar de sua vida – ela almoça em reuniões, dorme no carro indo para os ensaios e é mais articulada sobre suas personagens do que sobre si mesma. Já o pianista (Dupontel) descobre que a solenidade fria dos grandes concertos está acabando com seu amor pela música – e gelou junto os sentimentos entre ele e a esposa, também sua empresária. O colecionador (Brasseur) diz que a arte “impedia o tédio, quando ele chegava em seu casamento” e, percebendo que o acervo não tem mais sentido sem a mulher, decide vendê-lo.

Quem amarra todas essas histórias é Jessica (De France), a garçonete do bar por onde circulam os personagens. “Sem talento”, ela não substitui a vida com a arte – pelo contrário, tenta encontrá-la em pequenos pedaços da vida. Uma espécie de Amélie Poulain menos idealizada.

Entendidos de arte, os personagens de “Um lugar na platéia” não são capazes de enxergar a solução para os problemas na frente do seu nariz. Sempre que eles olham em uma direção, a editora Sylvie Landra corta como em contra-plano - só que para outra cena, em outro lugar – brincando com a montagem (e o espectador) e tornando visual a idéia do roteiro.

A diretora Danièle Thompson conduz o filme com diálogos rápidos e densos, no melhor estilo do cinema francês. Seu segredo é rir dessa mesma “densidade”, e do caráter excessivamente “cult” da história, no esgotamento dos personagens com a “arte” e com os efeitos dela em suas vidas. É nessa leveza trazida pela comédia, e nas boas intervenções musicais, que Danièle ganha o público.

“Um lugar na platéia” sofre, contudo, do mal do filme com muitos personagens e histórias. Algumas delas são mal aproveitadas - outras se destacam demais, como a magnetizante atuação de Valérie Lemercier - e as resoluções, em certos casos, parecem rápidas e simplistas. Fica a impressão de que, com menos tramas, o filme ficaria mais redondinho e objetivo. Afinal, com apenas quatro frases, Fernando Pessoa explicou essa mesma história do artista e a confusão que ele apronta com a realidade, o sonho – ou a vida, o universo - e tudo mais.

Jessica faz arte...

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