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In the bedroom

06.11.07

por Daniel Oliveira

1408

(EUA, 2007)

Dir.: Mikael Hafström
Elenco: John Cusack, Samuel L. Jackson, Mary McCormack, Tony Shalhoub, Jasmine Jessica Anthony

Princípio Ativo:
a soma de todos os medos

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Faça seu top 5 de medos entre todos abaixo:

TIPO A: Medo de morrer queimado, congelado, afogado, enforcado, de sonhar que está caindo e morrer de verdade.

TIPO B: Medo de altura, escuro, assombração, sangue, do número 13, de insetos nojentos, do Gollum.

TIPO C: Medo de ficar louco, ver e/ou falar com gente morta, perder alguém de que gosta muito, lugar fechado e/ou trancado, histórias, quadros e filmes macabros, quartos assombrados.

Eles estão todos em “1408”. Até o Gollum (numa tubulação de ar condicionado). Em algum momento, o filme vai te deixar, no mínimo, bastante aflito – e se você é dos que dizem não ter medo nenhum, cuidado. Você tem o pior deles: o de admitir que tem medo.

Que vem a ser o caso do protagonista Mike Enslin (Cusack). Ele é um ex-escritor promissor que, depois da morte precoce da filha, isolou-se do mundo e passou a ganhar a vida de forma semi-picareta, avaliando locais assombrados e escrevendo guias sobre eles. O quarto 1408 do título é aquele ponto mais alto da volta na montanha-russa, em que ele se arrepende de seu cinismo e fica com vontade de voltar. Só que não dá. E Mike não pode reclamar: ele foi avisado pelo gerente Olin (Jackson) de que “the room is fuckin’ evil”.

Muitas coisas assustadoras vão acontecer no lugar, no melhor estilo Stephen King, envolvendo toda a lista medonha acima. O maior medo, porém, que o protagonista enfrenta é o de encarar sua própria miséria. O filme gasta quase meia-hora antes do terror começar, só para definir bem o caráter de Mike. Cínico solitário, sem amigos, ele abandonou a mulher e só tem o rádio gravador para conversar.

A longa hora passada no 1408 é uma metáfora da sua vida: a opção em não lidar com a morte da filha, não acreditar em mais nada e se trancar com seus demônios em um calabouço assombrado em que ninguém pode entrar e no qual ele parece fadado a apodrecer. E a grande sorte do longa é ter Cusack no papel. Com olhares discretos, mas que dizem muito, e seu jeito de quem não liga muito para nada, o ator consegue achar humor nas agruras vividas por Mike e dar simpatia a um personagem não muito fácil. Afinal, seria simples não se importar se o autor morresse naquele quarto, já que ele ‘vive’ quase como um morto.

O próprio diretor Mikael Hafström também acha um jeito de brincar com o espectador mais otimista, com um ‘final feliz’ de mentira no meio do longa. Nesse equilíbrio entre matinê leve de terror e um personagem bem desenvolvido, “1408” joga com nossos medos corriqueiros e com o pânico de estar preso no inferno da própria vida, sem conseguir sair. Isso, sim, algo terrível de verdade.

Mais pílulas:
Abismo do medo
Old boy
Possuídos

“There are no fuckin' snakes in the fuckin' room but it's fuckin' evil, d'ya understand motherfucker?”

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