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Algumas pessoas mudam

07.01.08

por Daniel Oliveira

A vida dos outros

(Das leben der anderen, Alemanha, 2006)

Dir.: Florian Henckel von Donnersmarck
Elenco: Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck, Ulrich Tukur, Thomas Thieme, Hans-Uwe Bauer

Princípio Ativo:
metalinguagem, cinema, arte

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Quem nunca teve vontade de entrar na tela e salvar um personagem? Compartilhar o segredo que só você na poltrona sabe e que pode mudar o rumo da história - contar a Romeu que ela não está morta de verdade? O agente Wiesler da Stasi, polícia política da ex-Alemanha Oriental, e protagonista de “A vida dos outros”, realiza esse sonho.

Sentado no escuro sozinho, isolado do mundo, ele é um espectador cinematográfico. Seus aparelhos de escuta servem como tela, onde dramas burgueses de amor, traição e amadurecimento se desenrolam no iluminado apartamento do casal Georg Dreyman e Christa-Maria – dramaturgo e atriz suspeitos de conspiração contra o regime socialista.

Ao escutar Georg tocar a Sonata para um homem bom de Beethoven, o agente – solitário e sem vida – passa a proteger suas ‘vítimas’, mudando relatórios e até interferindo em seus problemas. Com Wiesler, o diretor e roteirista alemão Florian Henckel von Donnersmarck tem o mesmo insight de Milos Forman em “Amadeus”: a melhor forma de materializar o poder e a beleza da arte é mostrar seu efeito no receptor mais inesperado.

Na sua estréia em longa-metragem, von Donnersmarck exibe um controle e uma economia narrativa admiráveis. Ao não fornecer ao espectador uma determinada informação, envolvendo uma máquina datilográfica no clímax do filme, ele cria um suspense de beliscar o braço da poltrona – e mostra que sabe a lição primordial sobre o métier: cinema é o que não se mostra.

Toda a excelência na edição e fotografia não bastariam, porém, sem o ator Ulrich Mühe no papel de Wiesler. Espécie de paradigma do homem germânico, frio e sistemático, Mühe é fiel ao silêncio e à introspecção de seu personagem do começo ao final. Como que extraindo flores de dentro de uma parede de tijolos, o ator consegue expressar a transformação de seu personagem – o momento em que um homem, crente no trabalho que faz e no Estado Socialista, é conquistado pela subversão da arte – com uma única lágrima. E o espectador não precisa de mais nada.

Sem gritos discursivos ou didáticos, “A vida dos outros” fala de arte e política, emociona com seus dramas e prende em seu suspense. Tudo isso falando o tempo todo, basicamente, sobre cinema: o sujeito isolado do mundo na sala escura, que abandona sua dor e se transporta para a aventura do outro lado, mesmo que por algumas horas.

Von Donnersmarck ainda entra no top 10 de melhor fala final em um filme. Daquelas que deixam pensando: “precisava ser tão genial assim?”. Se o objetivo é provar o efeito surpreendente da arte sobre as pessoas, o sorriso ao sair da sessão responde: precisava, sim.

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Wiesler observa a vida dos outros. Ou aprecia arte, dependendo do ponto de vista.

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