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Unha e carne

07.08.08

por Renné França

Encarnação do Demônio

(Brasil, 2008)

Dir: José Mojica Marins
Elenco: José Mojica Marins, Jece Valadão, Milhem Cortaz, Adriano Stuart, Rui Rezende, Cristina Aché, Helena Ignez, Débora Muniz

Princípio Ativo:
Coffin Joe Inc.

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“Encarnação do Demônio” daria uma bela história em quadrinhos. A mistura de mulher pelada, sadismo, cores fortes e personagens fantasiados do novo filme de Zé do Caixão não faria feio em uma Heavy Metal ou Vampirella. Mas cinema é outra história.

Fechando a trilogia iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (e que conta também com a pérola “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, de 1967), o novo filme marca o retorno do icônico personagem criado por José Mojica Marins aos cinemas. Na trama, após 40 anos preso, Zé do Caixão é libertado e volta a procurar uma mulher perfeita para gerar seu filho.

Produção de primeira, com boa fotografia, efeitos bacanas e trilha apropriada, o filme tem seus momentos inspirados. O uso do preto e branco nas visões do coveiro e, principalmente, o plano seqüência que abre a narrativa, culminando com a inteligente apresentação do personagem - bastam sua voz e, claro, suas unhas, para que saibamos de quem se trata – são bons exemplos.

As doses de filosofia misturadas ao torture porn, que remetem automaticamente aos filmes de Eli Roth (não por acaso, fã declarado do Coffin Joe), são a marca do personagem - e aqui são levadas às últimas conseqüências. Não há história: é Zé do Caixão puro e simples, com toneladas de sadismo que deixam qualquer “Jogos Mortais” no chinelo. As cenas da jovem obrigada a comer sua própria nádega (é sério!) e das mulheres que castram os homens com a boca (mais sério ainda...) já nascem cults entre os fãs do gênero, mas para o público de cinema em geral talvez sejam apenas constrangedoras. Tudo bem a opção pelo grotesco, mas há problemas de roteiro que tornam essa opção uma simples muleta para Mojica se apoiar.

Enquanto sua crítica ao misticismo alienante dos brasileiros funcionava nos antigos filmes ambientados em cidades do interior, em “Encarnação” ela parece um pouco deslocada. A ambientação urbana obriga uma dose de realidade que não combina com a história e nem com as atuações. Entre personagens que aparecem e desaparecem sem propósito, Zé do Caixão tem uma inegável presença de cena, mas isso não é suficiente para um filme de narrativa frouxa.

A seqüência em um parque de diversões dá um vislumbre do que “Encarnação” poderia ter sido. E faz questionar se não é proposital a displicência com a história de um filme que, sim, vai se tornar objeto instantâneo de culto. Para quem achava que o personagem estava morto em época de terror asiático e psicopatas americanos, o coveiro lembra que “as unhas crescem mesmo após o óbito”.

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Zé do Caixão está velho, mas não está morto.

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