Looking 1×02 – Looking for uncut

Aos 30 anos, a gente quer mudar, ou parecer que está mudando – só que quanto mais tenta, mais claro fica que seremos sempre as mesmas pessoas com os mesmos defeitos cometendo os mesmos erros. Para demonstrar isso, este episódio começa com uma mudança: Agustín deixando o apartamento que dividiu com Patrick por oito anos para ir morar com o namorado no subúrbio. Ele sai da cidade reclamando de como São Francisco mudou – “cheia de cupcakes superestimados e tacos de kimchi”, reclamação originada da frustração de, aos 30, estar no mesmo lugar que você adorava aos 20.

Felizes para s...até quando?

Em Oakland, Agustín se recusa a deixar o namorado pendurar uma ilustração (gay fact # 1 “um unicórnio com um pinto no meio, SO CUTE!”) que ele fez quando tinha 17 anos. Ao mesmo tempo, porém, ele se gaba do sexo a três do episódio passado e faz questão de deixar claro que não está (totalmente) domesticado. Agustín faz todo um discurso sobre como todo relacionamento se abre eventualmente e que a traição é um caminho inevitável – para gays ou héteros – então é melhor que ela seja consensual.

Basicamente, é um monólogo em que ele ridiculariza e despreza toda a ideia de comprometimento e casamento que está no fundamento de sua mudança. E que revela a visão efêmera que gays têm de relações a dois. O que – somado ao fato de que família é um Voldemort que não deve ser mencionado, como Patrick mostra em seu encontro com Richie – explica porque amizades, como a de Agustín e Patrick, são tão centrais nesse universo.

Mas é uma fala que pontifica que, para o recém-casado, as coisas mudam para continuarem as mesmas. É uma incongruência que fica clara no desconforto silencioso da decisão de ficar em casa com o namorado ao invés de sair para a balada, ou quando Agustín pendura a ilustração no fim do episódio. Ele e Frank não têm a mínima ideia do que estão fazendo, ou segurança de que querem fazer. Mas os dois vão fake it until they make it. Ou não.

Um encontro quase perfeito.

O episódio também reforça o MO de Patrick em encontros: encher a cara e começar a falar descontroladamente até fazer inuendos sexuais – só que de um jeito que não o faz parecer sexy, mas sim um promíscuo superficial e enrustido que só pensa naquilo. Depois de Agustín provocar sua curiosidade dizendo que Richie provavelmente não é circuncidado (gay fact #2 Patrick pensa no pênis do peguete antes de saber sobre sua família ou notar que ele tem uma medalhinha religiosa), ele fica obcecado com a informação, googlando imagens e passando o encontro inteiro pensando em chupar o moço.

Richie pergunta sobre a família de Patrick, se ele veio do Colorado, fala sobre seu trabalho. Mas o protagonista quer ser o “gay moderno” que tem um fuck buddy, paga shots pro peguete, dança Erasure na pista e leva o cara pra casa no fim da noite. E claramente ele não é essa pessoa. Quando Richie percebe o quanto Patrick está tentando e o quanto não está sendo, ele vê que os dois querem coisas diferentes. E vai embora, assim como o médico da semana passada.

O protagonista ainda não sabe fazer a separação entre intimidade e sexo que Agustín explica no início do episódio – mais especificamente, ele não sabe ler quando seu parceiro quer uma coisa ou outra. E enquanto não entender isso, Patrick vai continuar sendo o rapaz do interior tentando mudar seu perfil para “gay descolê” – e parecendo alguém extremamente vazio enquanto isso.

A vida: um pé e uma bunda.

Já Dom se encontra com Ethan, o ex para quem ligou na semana passada – e o exemplo perfeito da mudança radical para uma nova forma de si mesmo. Ex-drogado, Ethan é agora um corretor de imóveis de Los Angeles, que usa terno e bebe chá gelado. Mas que continua pedindo para o ex pagar sua comida e que faz questão de pedir a clássica desculpa “você foi um erro terrível na minha vida, mas todas as coisas horríveis que eu te fiz foram indispensáveis para eu me tornar a pessoa sensacional que sou hoje”.

Claro que Dom se sente uma merda após o encontro e faz o que 90% dos gays faria: gay fact # 3 trepa com um cara do Grindr. Ou, nas palavras da sua roommate-amiga-enfermeira fantástica, “fucks the pain away with a member from the Wicked cast”. Quando ela confronta Dom sobre oito mil dólares que ele deu a Ethan quando os dois estavam juntos, o cara vai atrás do ex novamente e pede o dinheiro de volta. Um perfeito manipulador emocional, Ethan diz que o dinheiro foi dado, não emprestado. E Dom “não pode culpar aos outros, mas só a si mesmo por seus erros. Foi o que eu aprendi”.

É no final dessa cena que “Looking” mostra porque não é só “mais uma série de TV”. Qualquer outro seriado faria Dom confrontar Ethan na frente de seus clientes em um monólogo perfeito com todas as coisas que ele merece ouvir. Mas a vida não é assim. A gente nunca sabe o que dizer na hora certa. Então, o roteiro e a direção de Andrew Haigh fazem ele gaguejar um grito quase balbuciado: “uma vez drogado, sempre drogado”. Uma fala meio patética que, se envergonha o alvo, faz seu dono parecer ainda pior. Porque as coisas nunca mudam: na relação dos dois, Ethan continua entrando com o pé e Dom com a bunda.

2 Comentários

  • L.
    Em 28 de janeiro de 2014 15:07 0Likes

    Seus reviews do seriado estão ótimos. Muito melhores do que os gringos, como o The Guardian que continua batendo na tecla de que “Os gays não estão sendo representados na série”. O próprio criador de Looking disse que não é possível representar todos os tipos de gays no seriado, mas que iria contar a história desses três personagens em questão. Enfim, estou gostando bastante da forma como você tem transposto a situação que os três têm vivenciado ao cotidiano de “nós” do mundo real. hehe.

  • Daniel
    Em 28 de janeiro de 2014 16:14 0Likes

    Obrigado, L.! Também acho impossível representar todo o espectro gay e um pensamento bastante limitado achar que é. Mas estou muito empolgado com uma série com três personagens nos quais eu me enxergo bastante. Obrigado por ler os textos =)

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