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Americana.

17.08.06

por Rodrigo Campanella

A Cidade Perdida

(The Lost City, EUA, 2005)

Dir.: Andy Garcia
Elenco: Andy Garcia, Inés Sastre, Bill Murray, Nestor Carbonell, Enrique Murciano, Dustin Hoffman

Princípio Ativo:
sangue e memória

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Quando subiram os créditos de “A Cidade Perdida”, eu me percebi com uma vontade súbita de subir a América numa moto. Vontade dois anos atrasada, já que eu esperava por ela na saída de “Diários de Motocicleta” e tomei um belo bolo. A comparação explica a maior qualidade desse novo filme, ainda que o outro seja tão mais caprichado no fazer cinema e bem aparado no contar história.

“Diários” sofria do mal que derrubou um homem-de-aço: numa produção milimetricamente medida para exaltar um mito, sobra pouco espaço para sentir ou refletir algo que não seja veneração. Andy Garcia, agora diretor, até tenta construir sua cidade perdida com andamento de grande saga (“Poderoso Chefão” é influência confessa) mas lembra um aprendiz de feiticeiro: sabe a essência da mágica, mas não como controlar os encantamentos.

Ainda assim, se ano passado a melhor história de amor em película ficou por conta do tango casmurro do jardineiro fiel e sua dama, “A Cidade Perdida” é bom concorrente ao posto em 2006.

Amor aqui não é o melô borocochô que une o dono do nightclub (Garcia) à viúva alegremente triste (Inês Sastre, em stand-by). Garcia, cubano exilado nos EUA, peregrinou 16 anos por Hollywood buscando quem produzisse seu libelo contra a ditadura da Ilha, tenha ela o carimbo “Castro” ou “Batista”. Nem o roteiro do escritor Guilhermo Cabrera Infante ajudou. É essa persistência que se converte na tela em dois amores: por uma cidade (Havana) que não existe mais em presente ou futuro e por uma pergunta arisca – se a cultura precisa ser trancada, de qual liberdade estamos falando?

Essa garra de filmar a cidade desaparecida é que mantém o filme à tona. O romance tende ao dramalhão, momentos-chave do roteiro são atropelados como a escolha de um padrão de tv digital, diálogos parecem melhores impressos do que falados, o filme é extenso, Garcia de bom-moço não convence e a caricatura de Che é puro ódio. A despeito disso, o filme consegue ser de fino trato.

A intimidade com o lado cru de duas ditaduras vem através da dissolução do clã Fellove, retratado em fotografia de sintonia fina do noir ao branco rasgado de sol, e com ótimas montagens paralelas. Se os personagens são incompletos, o trunfo do filme é firmar sua postura política na intimidade do público com essa família toda que parece feita do mesmo barro que as casas de Havana. A paixão pela cidade vem fácil, e já não dá mais para pensar em Cuba sem lembrar das imagens de Garcia e Infante. E, afinal, não é para salvar mundos que se filmam memórias perdidas?

Centro Cultural Andy Garcia: Boa música, ótima dança,
alguma teatralidade e vários filmes de referência.

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