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Um banquinho, uma câmera na mão

24.04.08

por Igor Vieira

Os desafinados

(Brasil, 2008)

Dir.: Walter Lima Jr.
Elenco: Rodrigo Santoro, Cláudia Abreu, Selton Mello, Ângelo Paes Leme, André Moraes, Alessandra Negrini, Jair Oliveira

Princípio Ativo:
bossa nova

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Em um ensaio do grupo Os Desafinados, Dico (Selton Mello) – representante do cinema novo - reclama da música que os amigos fazem. Para ele, a bossa nova exagera no “pertinho”, no “banquinho” e deixa de lado questões sociais importantes para o país. O baterista PC (André Moraes) responde categoricamente: “Dico, eu não sou crítico. Sou músico”.

É com esse espírito que, na década de 60, eles e mais três amigos partem para Nova Iorque na tentativa de se apresentar no Carnegie Hall, no grande show que marcou a história do gênero e levou aos Estados Unidos nomes como os de Tom Jobim e João Gilberto. Lá, Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), PC, Geraldo (Jair Oliveira) e Dico conhecem Glória (Cláudia Abreu), aquela que passará a ser a voz feminina do grupo.

O filme começa no presente quando a morte de Glória é noticiada e uma homenagem a ela começa a ser planejada pelo grupo. Voltando aos tempos da bossa através das memórias dos personagens e das películas de Dico, “Os desafinados” se apresenta como um longa regado pelas reminiscências de quem viveu intensamente aquele período.

No regresso ao Brasil, os personagens encontram um país à beira de um golpe militar que, como a todos os brasileiros, traz conseqüências a eles. Ainda assim, o assunto é tratado mais como cenário do que personagem. Aqueles que enxergarem no papel de Selton um alter-ego do diretor Walter Lima Jr. (fato já desmentido por ele) e esperarem de “Os Desafinados” um filme político sobre a ditadura brasileira podem se decepcionar.

Lima Jr. fez um trabalho carregado de afetividade, a ponto de algumas cenas fazerem referência não só a momentos importantes da história da música brasileira (além do concerto no Carnegie Hall, ele adapta para a ficção o seqüestro do músico Tenório Jr. sofrido na Argentina), mas de sua história pessoal. Parte dos personagens, inclusive, leva nomes de grandes amigos seus.

Próximo ao final, o retorno de um dos atores no papel de seu próprio filho lembra a pieguice dos últimos capítulos das minisséries globais. A escalação de estrelas da casa, que traz também Alessandra Negrini, ajuda nesse propósito. Mas a sensibilidade do diretor logo coloca o espectador de volta na poltrona do cinema.

“Desafinados”, nas palavras do próprio Walter, não é sobre a bossa nova, é sim um filme bossa nova. E por isso fala de amores, de amizade e de tudo relacionado ao campo afetivo. Uma obra simples regada à boa música e ótimas atuações.

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Cláudia Abreu & Os desafinados, mas pode chamar de Susie & the Baker boys.

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